Doutor, eu não me engano
22/12/2010
Justiniano escolheu o time para o qual iria torcer aos quatro anos de idade. Optou pelo então campeão do título que duraria cem anos, o quarto centenário da cidade de São Paulo.
O que Justiniano não sabia era que os 23 anos seguintes à decisão infantil marcariam sua vida para sempre. Nesse período o Sport Club Corinthians Paulista pasaria pelo maior jejum de títulos de sua história e – consequentemente, talvez – uma doença instalaria-se em seu jovem coração.
Mesmo muito depois da equipe voltar a levantar o caneco, os anos de sofrimento na torcida enfraqueceram demais o já debilitado órgão muscular oco. A solução era única: o transplante.
Após anos na fila de espera, vem a ligação de Dr. Orfeu, seu médico há mais de duas décadas.
- Temos um novo, seu Justiniano, mas eu preciso avisar uma coisa. Conhecendo o senhor como eu conheço, preciso quebrar o protocolo e dizer que o falecido era palmeirense.
- Um coração de porco? Jamais! Passe-o adiante.
Apesar do ímpeto, foi a decisão mais difícil da vida de Justiniano. Temiar ter desperdiçado a única chance. Optara viver corintiano a viver com a dúvida.
Três meses depois vem a nova chamada. Dessa vez Dr. Orfeu mantém o sigilo.
- Ora, doutor, me falou da primeira me fala da segunda. De quem era? – ouve a resposta – De mulher? De mulher… De mulher! Está bem doutor, vamos à mesa.
Um ano depois do transplante de sucesso Dr. Orfeu encontra a esposa de Justiniano e pergunta como vai com o novo coração.
-Ah, uma maravilha doutor. O Justiniano está tão carinhoso e atencioso comigo, começou a me acompanhar aos lugares que quero ir e se preocupa mais com a dieta e com a saúde agora. Acredita até que topou fazer comigo as aulas de dança que eu sempre sonhei? Ele está um amor.
Dr. Orfeu dormiu naquela noite, e todas as outras até falecer, pensando se contar a verdade a Justiniano foi a decisão correta. De qualquer modo, nunca mais fez um transplante.
Felipe Blumen