A bola curva de Tonhão
30/12/2010
“PROCURA-SE UM PÉ ESQUERDO.” Este foi o anúncio que me chamou a atenção quando lia os classificados um tempo atrás. Comentei por alto com Preta, que varria a sala.
- Veja, Preta. Era só o que faltava. Algum infeliz conseguiu perder o pé.
Para minha surpresa, ela respondeu:
- Eu sei, foi seu Tonho. Passou aqui outro dia perguntando se eu tinha visto um pé assim e assado. Coisa de maluco.
Por um instante não soube de quem se tratava. Depois fiquei desesperado. “O Tonho não, qualquer um menos o Tonho”, pensei. Não era para menos. Afinal, no dia seguinte seria a final da Copa do Bairro e o Tonhão era o ponta-direita do meu time. O problema precisava ser solucionado com urgência. Fui à casa dele.
- Você é um estúpido – constatei ao vê-lo sem o pé.
- Não enche! Vamos, me ajude a achar o pé. Amanhã é…
- A final, eu sei. Como é esse pé?
- É o esquerdo.
- Isso eu sei, vi no jornal. Mas como lhe parece?
- Bonito. Está bronzeadinho porque eu passei o fim de semana em Santos.
- Estou falando sério. Pense, homem!
- Está bem. Tem cinco dedos, em ordem crescente de tamanho, do mindinho para o dedão.
- Isso não ajuda. Qual o tamanho?
- Costumava calçar quarenta e dois.
- E de altura?
- De altura? É mais ou menos assim – faz uma medida com as mãos – vai do chão até o tornozelo.
- Peludo?
- Acho que tem um pelo solitário no peito. E meia dúzia na chureula.
- Chu o que?
- Chureula. A parte de cima do dedão.
- Não importa! Isso já é alguma coisa, mas ainda está muito genérico. Tem alguma marca de nascença?
- Uma cicatriz perto do calcanhar, mas é quase imperceptível. – Procura fundo na memória. –Ah! Eu tive um olho de peixe um tempo atrás, pode ser que ainda tenha marcas.
- Nojento, mas pode ser útil.
Tonho começa a ficar desesperado:
- Meu deus, a final! Como vamos ganhar dos Desquitados sem a minha canhota? Você sabe que a minha direita não serve nem para subir no ônibus.
Realmente, não havia jeito de jogar sem ele. O Desquitados era forte, mas iam jogar a final sem o lateral-esquerdo, que estava suspenso. O Tonhão jogava ali, era o caminho da vitória.
- Calma que nós vamos achar esse pé. O que ele faz, por onde costuma andar?
- Bom, eu vejo sempre ele na companhia do pé direito.
- Este aqui? – perguntei olhando para o pé que lhe restava. Sem esperanças de que aquele pé pudesse ser útil no jogo de amanhã.
- Exato. É quase igual ao outro, exceto por esse joanete.
- Espere um pouco. Você não tinha uma fitinha do Senhor do Bonfim amarrada nesse pé, que eu te trouxe da Bahia?
- Tinha sim, mas era no esquerdo. Aliás, está aqui – tira o adereço do bolso –, mas que me adianta a fita se o pé eu não acho? E está cortada ainda.
- Você não percebe, Tonho? Se a fita está aqui, cortada, e o pé não, é porque você não o perdeu. Ele foi roubado!
- Não é possível. Como me roubariam o pé sem que eu percebesse?
- E por acaso não foi esses dias que você chegou bêbado cambaleando em casa?
- É isso! Foi no dia que eu encontrei o Barriga, capitão do Desquitados. Larápio! Quis me tirar do jogo.
- Safados. Mas agora não adianta reclamar, vamos dar um jeito nesse pé.
Já sabendo quais mãos estavam sobre o pé, restava pensar em como solucionar o problema da canhota de Tonhão. E até hoje me orgulho da decisão que tomei naquela tarde de sábado.
Quem olhar no jornaleco do bairro vai ver que o Desquitados perdeu aquela final por um a zero com gol de Tonhão. Um chute indefensável, com a bola fazendo uma das maiores curvas que o mundo já viu. A “bola curva de Tonhão” apareceu até no Fantástico, com uns cientistas tentando desvendar o segredo do petardo. Não conseguiram porque não foram ao jogo naquele domingo. Quem foi, jura que viu Tonhão jogando com dois pés direitos.
Felipe Blumen