Futebol, uma ciência exata

24/12/2009

A negação da frase que serve como título para este post foi muito utilizada neste ano que vai se despedindo; jogadores, técnicos e especialistas não sabendo como explicar resultados improvavéis, apelavam para a dita cuja. Compreensível, já que o campeonato brasileiro de 2009 foi o campeonato do inexplicável. Foram muitos os que desistiram de encontrar razões (com bom senso, é claro, afinal, foram inúmeras as teorias da conspiração) para a queda do Palmeiras, a recuperação do Fluminense, a ascensão do Flamengo, entre outros. Sendo assim, “o futebol não é uma ciência exata” foi ouvido a cada zebra, talvez por considerarem que “o futebol é uma caixinha de surpresas” seria muito clichê.

Abaixo listo alguns “postulados do Brasileirão”, fatores que desde que o campeonato passou a ser em pontos corridos são considerados essenciais para o sucesso de uma equipe, que foram transformados pelo certame deste ano.

O planejamento, o projeto

Quando V(W)anderlei(y) Luxemburgo conquistou o primeiro campeonato brasileiro de pontos corridos com o Cruzeiro em 2003, não se cansou de repetir que o resultado viera graças ao projeto do time mineiro; ele fez o mesmo com o Santos campeão de 2004 e, até hoje, logo que assume um novo clube diz que aceitou a proposta baseada no projeto de tal equipe. Por muito tempo tido como o melhor técnico do Brasil pela maioria da imprensa, esta engoliu a história do atual treinador do Atlético-MG como um mandamento: “Só é campeão quem tem um planejamento e um projeto”. Mas o que seriam essas duas coisas? Aí encontramos mais uma variedade de lugares comuns regorgitados pela mídia esportiva tupiniquim: Estrutura (centro de treinamento adequado, centro de recuperação física de jogadores, psicólogos, diretores de futebol etc.), pré-temporada, manutenção de grande parte do elenco, e claro, também do técnico. Pois bem, o campeão Flamengo conseguiu trangredir todas essas afirmações; o clube possui um centro de treinamento precário, viveu intenso conflito político com a licença de seu presidente por motivos de saúde, fez inúmeras contratações ao longo do campeonato e mudou de treinador. Não obstante, o segundo e terceiro colocados, Inter e São Paulo, que se consideram os clubes mais ultra-mega-super modernos da face da Terra, também presenciaram mudanças de seus comandantes ao longo do certame. Ah, não poderíamos esquecer de ressaltar a campanha do rei do planejamento professor W(V)anderley(i) Luxemburgo, que depois de demitido do Palmeiras, passou o torneio inteiro prometendo levar o Santos à Libertadores e acabou num honroso 12º lugar. É o fim do planejamento como o conhecíamos.

Vencer os jogos em casa

“Fazer a lição de casa”, é isso que técnicos e jogadores não cansaram de repetir como indispensável para o sucesso de suas equipes. O Grêmio, então, foi o aluno perfeito: em 19 jogos, 14 vitórias e 5 empates. No entanto, não contava que fora de seus domínios tivesse uma campanha de rebaixado ao vencer apenas uma partida, empatar 5 e perder 13. E assim caiu mais um postulado do Brasileirão.

A regularidade

Os especialistas não têm dúvida, o campeonato de pontos corridos premia a regularidade. O caso é que esta edição do Brasileiro premiou a última regularidade; o Flamengo passou o campeonato inteiro no meio da tabela, após um série de 10 jogos sem derrota, a equipe carioca alcançou o grupo da frente mas só chegou à liderança na penúltima rodada. O Palmeiras foi a melhor equipe do campeoanto até a rodada 34, quando deixou a liderança após 20 jogos, ou seja, os maus resultados das últimas 10 partidas da equipe de Muricy Ramalho jogaram fora a regularidade que a equipe demonstrou nas outras 18. O inverso ocorreu com o Fluminense; portanto, não se trata tanto de ser regular ao longo do campeonato e sim ter uma boa sequência de vitórias no momento certo.

Com o que foi exposto acima, não pretendo desmerecer o campeoanto de pontos corridos nem a vitória flamenguista, mas apenas demonstrar que certos discursos devem ser mudados, pois as circunstâncias de determinado campeonato fazem com que seja decidido por diferentes razões. O campeonato de 2003 foi vencido pela equipe que tinha indiscutivelmente o melhor plantel da época, 6 anos depois não temos uma situação semelhante, portanto, é errôneo pensar que o que levou o Cruzeiro a ser campeão naquele ano é o mesmo que levou o Flamengo a ser campeão neste.

Terminado o campeonato, origina-se o momento de especulações e parte da imprensa não se cansa de criar suas verdades, a frase da moda agora é: “fulano tem tudo acertado com time X, só falta o time Y liberar”. SÓ?! As equipes também não mudam muito, é só dar uma olhada no noticiário e ver que o Corinthians continua achando que pode ganhar a Libertadores com grandes nomes, o São Paulo se considera tão bem estruturado que contrata jogadores fracos tecnicamente e mentalmente achando que pode consertá-los, o Inter insiste em posar de clube mais moderno do Brasil e contrata técnico estrangeiro, o Palmeiras diz que no ano que vem tudo vai ser diferente, o Grêmio faz força descomunal para manter um ídolo portenho. O futebol brasileiro tenta ser uma ciência exata.

Rodrigo Giordano

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: