O milagre da bola

19/01/2011

Quando escrevi a minha primeira postagem neste blog, há cerca de um ano e meio, fiz questão de exaltar a importância do futebol não apenas como o esporte interessantíssimo que de fato é, mas por sua relevância social e histórica. Se formos nos aventurar a estudar a história do ocidente no século XX, fatalmente nos defrontaremos com episódios em que o referido esporte exerceu um papel determinante no imaginário das massas. O genial Nelson Rodrigues cunhou a expressão “complexo de vira-lata” após a mais dolorosa derrota do futebol brasileiro em todos os tempos, na final da Copa do Mundo de 1950. Segundo o célebre dramaturgo, aquela derrota para o Uruguai havia reforçado o espírito do brasileiro se sentir subjugado, de não se deixar levar a sério pelo resto do mundo – não só no que se referia ao futebol.

Se a Copa do Mundo de 1950 tivera como sequela um abatimento profundo do povo brasileiro, a edição de 1954, disputada na Suiça, teve um significado completamente oposto para os alemães. A vitória inesperada da seleção da Alemanha Ocidental frente a poderosa Hungria do craque Puskas, na final da competição, encheu de ânimo o povo alemão, que finalmente pode erguer a cabeça e esquecer de seu terrível passado recente, dando início a uma incrível recuperação econômica. Muito além da façanha esportiva, a vitória alemã em 4 de julho de 1954, em Berna, é tida pelos alemães como um marco que os fez recuperar a auto-estima no pós-guerra.

É justamente sobre esse assunto que o filme O Milagre de Berna (Das Wunder von Bern) trata. A película lançada em 2003, do diretor Sönke Wortmann, tem como objetivo exaltar o improvável triunfo da seleção alemã e, por esse motivo, adota um tom irritantemente patriótico. No filme,os adversários alemães na competição são citados apenas de passagem e o hino alemão é cantado a plenos pulmões pela ensandecida torcida nas arquibancadas. O polêmico gol anulado que Puskas marcou pela Hungria no final da peleja não é sequer citado, assim como o possível uso de substância ilíticas pelos jogadores alemães durante o intervalo. O apelo patriótico, no entanto, parece ter funcionado: o filme foi um enorme sucesso de bilheteria na Alemanha.

O personagem que conduz a história é o fictício Matthias, um  garoto apaixonado por futebol que, por acaso, é amigo daquele que seria o herói da conquista alemã, responsável por marcar o gol do título, Helmut Rahn. A família de Matthias é um síntese dos tormentos da Alemanha nos anos que sucederam 1945: seu pai volta de uma campo de trabalhos forçados na União Soviética após 13 anos tido como prisioneiro e, atormentado, não sabe mais lidar com a família; seu irmão mais velho não se conforma com o abatimento e conformismo que haviam tomado conta do país, além de ter um enorme rancor do regime nazista, e por essa razão abandona a família e muda-se para a Alemanha Oriental na busca de uma nação com mais ideais por seguir. Apesar da louvável tentativa de tentar traçar um panorama agruras familiares daquele período, todos os conflitos dos personagens parecem pouco convincentes, quase caricatos.

Apesar de alguns excessos, o diretor procurou ter esmero em se ater às factualidades. As cenas que retratam a partida derradeira entre Alemanha e Hungria são muito bem feitas e os gols foram minuciosamente ensaiados para que as jogadas fossem muito parecidas com as originais. O estádio está igualzinho ao que aparece nas gravações da época. Parece que fomos transportados para 1954.

“O Milagre de Berna” não é um grande filme. Os personagens são rasos, o didatismo do diretor chega a ser irritante. No entanto, vale a pena assisti-lo para saber um pouco mais  sobre a interessante história da desacreditada seleção alemã ,composta por jogadores amadores, que bateu a poderosíssima Hungria, que estava invicta há mais de 4 anos.

Caio Hornstein

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