Complexo de golden retriever

15/02/2011

Várias vitórias do Boca Juniors e do River Plate sobre times brasileiros no final dos anos 90 e começo dos anos 00 fizeram com que nascesse uma das maiores falácias sobre o futebol argentino atual, a de que apenas esses dois times prestam. A imprensa esportiva brasileira, muito mal informada, passou a desdenhar os torneios continentais em que ambos não participavam, dizendo que as equipes brasileiras que disputavam tais competições teriam um caminho fácil pela frente. Nem mesmo as crises pelas quais Boca e River vêm enfrentando desde a metade da década atenuou tal situação; foi preciso o Estudiantes vencer o Cruzeiro em pleno Mineirão, na final da Libertadores de 2009, para as equipes argentinas voltarem a ser temidas. Mas o Estudiantes tinha Verón, e a mídia brasileira tratou de rotular o time de La Plata como um time razoável com um jogador brilhante, ignorando as ótimas atuações de Andújar, Angelleri e Boselli.

O início da Taça Libertadores de 2011 e o torneio sul-americano sub-20 possuem ótimos exemplos para mostrarmos como a suposta superioridade do atual futebol brasileiro sobre o atual futebol argentino é uma mentira. Fluminense x Argentinos Juniors: o atual campeão brasileiro era dado como favorito absoluto pela mídia tupiniquim, afinal, jogava em casa e o adversário argentino não vestia azul e amarelo, nem branco e vermelho, tampouco tinha um craque conhecido. Talvez os “especialistas” não soubessem que o Argentino Juniors havia vencido o Torneiro Clausura 2009-10, ou seja, também havia sido campeão nacional no mesmo ano que o tricolor carioca (apesar do Clausura terminar em junho). O argumento que tenta pormenorizar a “evidente” superioridade de nosso futebol sobre o deles é ainda pior, pois vem carregado de preconceito: “time argentino sempre complica, muita catimba, duas linhas de quatro, entradas mais fortes”, ou seja, um time argentino nunca vence um brasileiro porque é simplesmente melhor técnica ou taticamente. Pois bem, o Argentino Juniors iniciou a partida no Engenhão num 3-4-3, poucas foram as jogadas mais ríspidas e a equipe de Pedro Troglio não se limitou aos contra-ataques apenas, pelo contrário, por várias vezes esteve melhor na partida do que o Flu, num jogo marcado pelo equilíbrio; o meio-campista Mercier e o veloz Niell jogariam fácil numa equipe que estreia na Libertadores com Diguinho e Williams no time titular, Salcedo é um centroavante que anda em falta no futebol brasileiro e Oberman poderia ser mais um desses camisas 10 argentinos que vêm se multiplicando em nossos campos. Em Brasil x Argentina, pelo torneio sub-20, o time brasileiro era evidentemente mais forte do que a seleção albiceleste, porém, os garotos brasileiros, tomados pelo preconceito que já atingiu o senso comum, acharam que tinham que mostrar aos argentinos que também sabiam bater. Resultado: Juan expulso logo no começo do jogo por dar um soco no atacante adversário dentro da área, 2 a 1 Argentina.

Niell, 1,62m, deixou dois de cabeça no Flu...

É claro que o campeonato brasileiro é mais forte do que o campeonato argentino, mas convenhamos, o Brasil vive uma época muito mais próspera economicamente e seus clubes possuem mais capacidade de investimento; no entanto, se isso constitui uma superioridade razoável, não é tanto quanto que se propagandeia na mídia nacional, e isso fica explícito por uma simples conta de proporcionalidade: Brasil e Argentina possuem um número próximo de jogadores de sucesso nas principais ligas da Europa, mas nós temos uma população de 180 milhões de habitantes, enquanto eles têm 40 milhões. O que torna ainda mais contraditória a visão de que nós temos times técnicos e eles equipes batalhadoras é a importação de meias armadores: Dário Conca e Walter Montillo foram os melhores jogadores do campeonato do ano passado, e ainda há D’Alessandro e Botinelli. Portanto, desinformação e preconceito, além de uma grande vontade de parte da mídia em exacerbar a rivalidade entre ambos os países, acabaram por formar uma visão comum no público, nas comissões técnicas e até nos jogadores, da falta de técnica dos jogadores argentinos que atuam no futebol local, sempre em contrariedade ao “futebol muleque-ziriguidum-chuteira rosa-moicano-pedalada-samba” do Brasil. Nem mesmo os altos graus de miopia que acometiam a visão de Nelson Rodrigues o impediriam de enxergar este novo fenômeno do futebol brasileiro: um vira-lata metido a cachorro de burguês.

Rodrigo Giordano

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