Peroba neles

18/04/2010

A sociedade espera, mesmo que seja constantemente hipócrita, uma postura honesta e ética por parte das categorias trabalhistas que a compõem.  Cobra-se que o médico desempenhe suas funções zelando por seus pacientes, os professores tenham comprometimento com os alunos e, principalmente, que os políticos não se corrompam. Uma categoria profissional, no entanto, parece ser imune às cobranças por ética, tanto por boa parte da imprensa quanto da sociedade: os futebolistas.

Uma prerrogativa básica dos jogadores de futebol é a de que os fins justificam os meios. É a famosa “Lei de Gérson” – conceito que alude ao meia campeão do mundo em 1970, que em um comercial de tabaco exaltava aqueles que “gostavam de sair vantagem em tudo”- , seguida à risca pela classe.  Atirar-se ao chão como um artista circense, simular dores incríveis, marcar gols usando as mãos: são atos corriqueiros, tão arraigados na cultura dos boleiros, que parecem não suscitar objeções, além de serem endossados pelos aplausos das torcidas beneficiadas. As atitudes dos torcedores são uma evidência de que o futebol é, de certo modo, um reflexo da própria sociedade. A intenção dos atletas é clara: ludibriar os dois olhos do árbitro; a vergonha, inexistente: não há qualquer temor de se exporem ao ridículo ao serem flagrados pelas câmera de TV e os milhões de olhos dos telespectadores.

A cobrança toda acaba por recair no árbitro – figura pequena dentro do futebol milionário – que passa a ter a função de interpretar simulações, e não marcar simplismente aquilo que vê. Quando um gol é marcado com as mãos, por exemplo,  as acusações são focadas no árbitro que valida o gol, ignorando o espírito vigarista do atleta infrator que, muitas vezes, é taxado de “esperto”.

É evidente que tais atitudes não são exclusividade dos jogadores brasileiros- o escandaloso gol de mão de Henry nas eliminatórias, que classificou a França à Copa do Mundo de 2010 vem à cabeça-, embora sejam características frequentes nos esportistas nacionais.

No ano passado, o jogador brasileiro naturalizado croata, Eduardo Silva, atuando pelo Arsenal,  simulou escanadalosamente um pênalti- validado pelo árbitro- em partida da Champions League. O atleta foi punido com uma suspensão de dois jogos. O maior castigo, no entanto, veio das arquibancadas: Eduardo foi vaiado por sua própria torcida a cada vez que pegava na bola, em jogo posterior, em razão de sua desonestidade. Alguém consegue imaginar atitude semelhante em terras tupiniquins? Em caso semelhante, no máximo, o árbitro que  marcou o pênalti seria suspenso por algumas partidas.

Na ausência de atitudes enérgicas por parte das esferas superiores do esporte, a imprensa nativa deveria se encarregar de execrar as desonestidades dos jogadores, o que, evidentemente, não ocorre. Dificilmente se vê na imprensa alguma discussão em relação à postura mesquinha dos atletas; não se mexe nesta ferida, talvez pelo fato da própria imprensa estar em débito com a lisura. Paradoxalmente, discussões infindáveis sobre arbitragem abundam nos programas esportivos.

A título de curiosidade, segue o link do Youtube com o comercial que deu origem à famigerada “Lei de Gérson”, além da constatação de que há muito tempo publicitários e jogadores de futebol nos brindam com propagandas ridículas.

Caio Hornstein

O título se refere ao Campeonato Brasileiro de 2009; o campeonato que só é interessante pra imprensa que quer vendê-lo e para quem não torce para nenhum time que está na disputa. Provavelmente flamenguistas ou são-paulinos terminarão com um sorriso no rosto, mas esse campeonato foi tosco.

No aspecto técnico nada de muito diferente dos últimos anos; jogos truncados, poucas jogadas bonitas e os locutores abusando do: “o jogo está fraco tecnicamente mas sobrando em emoção”. Você vai dizer que o campeonato está tendo um equilíbrio impressionante, com até 6 times chegando ao fim do certame pensando em título. Mas esse equilíbrio vem do péssimo nível técnico das 20 equipes, na qual um confronto entre o primeiro e o último colocado é uma grande incógnita; os confrontos diretos entre os que disputam a taça normalmente são jogos horríveis, afinal, ambos os times têm medo de perder.

Não obstante a técnica degradante que as equipes brasileiras vêm apresentando, este campeonato teve um componente a mais para torná-lo desagradável: a arbitragem. Mas você se engana se pensa que ela anda por aí sozinha aprontando das suas, conta com a importantíssima ajuda do STJD, que aproveita este momento final para colocar suas manguinhas de fora. Exemplifiquemos:

-Vágner Love leva uma suspensão de dois jogos por uma falta que foi punida com cartão vermelho pelo árbitro da partida, ou seja, não interessa o que o homem que comanda a peleja determina, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva pune como bem entende.

-Dagoberto, contra o Grêmio, faz uma falta do mesmo nível da de Vágner e é suspenso por três jogos; Jean, no mesmo jogo, com uma falta mais leve que a dos dois citados é punido da mesma maneira; já Borges, que agrediu o volante Túlio do time gaúcho também foi suspenso por 3 jogos.

-Alan, atacante do Fluminense, desferiu uma cabeçada em Armero, do Palmeiras, que abriu o supercílio do lateral colombiano durante o embate entre ambas equipes.  Alan não foi punido, um dos juízes alegou que ele havia sofrido muitas faltas durante o jogo, entende-se: “dente por dente, olho por olho”.

Mas são, realmente, os árbitros que tem se superado; a arbitragem brasileira virou terra de ninguém. Sérgio Corrêa, o presidente da comissão de arbitragem, não se pronuncia sobre nada, simplesmente afasta os juízes que se envolvem em lances polêmicos, e Ricardo Teixeira, o presidente da CBF, está preocupado demais em leiloar amistosos da seleção e aumentar cada vez mais o caixa de uma confederação já riquíssima. Erros de arbitragem ocorreram em todas as edições do Brasileirão, isso é óbvio, mas neste eles têm se concentrado mais ao final do campeonato e influenciado muito na luta pelo título. Novamente, exemplifiquemos:

-Obina e Maurício, ambos do Palmeiras, trocam tapas e socos ao fim do primeiro tempo do jogo contra o Grêmio; ambos são devidamente expulsos por Héber Roberto Lopes (o mesmo que não quis deixar o time do Palestra Itália com dois a menos no clássico contra o Corinthians, ao dar apenas cartão amarelo a Danilo após carrinho criminoso em Jorge Hnerique).

– Hugo e André Dias, ambos do São Paulo, fizeram algo semelhante ao seus colegas palmeirenses; no jogo contra o Vitória, trocaram cabeçadas e tapas dentro da área. Leandro Pedro Vuaden (o que deixa o jogo correr) erroneamente só aplicou cartões amarelos aos dois.

Não é nem preciso citar os erros de Carlos Eugênio Simon (o que vai pra terceira Copa seguida), Elmo da Cunha e de tantos outros que erraram durante o campeonato inteiro. O que mais irrita é a falta de CRITÉRIO, cada um apita a sua maneira; um exercício simples mostra como a aplicação de diferentes critérios altera certos resultados:

-Se Vuaden tivesse apitado Grêmio x Palmeiras, somente Maurício teria sido expulso, pois já tinha amarelo (que aliás dificilmente o árbitro gaúcho teria dado). Se Héber tivesse apitado São Paulo x Vitória, Hugo e André Dias teriam sido expulsos logo no primeiro tempo do jogo que o tricolor paulista venceu por 2 a o. Se qualquer um dos vários árbitros brasileiros que veem falta em tudo tivesse apitado Grêmio x Palmeiras, teria dado pé alto de Maxi Lopez em lance que originou o gol do time gaúcho.

Não estou querendo dizer com esse texto que se certo time for campeão será de maneira injusta, pelo contrário. Só acho que muitas decisões poderiam ter dado rumos diferentes à disputa, e isso tudo por algo facilmente solucionável: o estabelecimento de um critério para toda arbitragem brasileira. Se for decidido que espirrar em campo é caso de cartão amarelo, que assim seja, desde que respeitado por todos. Porque a última coisa que um futebol tecnicamente nivelado por baixo precisa é uma arbitragem que sofra do mesmo problema. O melhor que fazemos agora é esperar pelo dia em que o campeonato seja equilibrado pelo excelente nível técnico dos competidores e ninguém nem saiba quais os nomes daqueles homens que andam pelo gramado com um uniforme diferente de todos os outros.

Rodrigo Giordano