A negação da frase que serve como título para este post foi muito utilizada neste ano que vai se despedindo; jogadores, técnicos e especialistas não sabendo como explicar resultados improvavéis, apelavam para a dita cuja. Compreensível, já que o campeonato brasileiro de 2009 foi o campeonato do inexplicável. Foram muitos os que desistiram de encontrar razões (com bom senso, é claro, afinal, foram inúmeras as teorias da conspiração) para a queda do Palmeiras, a recuperação do Fluminense, a ascensão do Flamengo, entre outros. Sendo assim, “o futebol não é uma ciência exata” foi ouvido a cada zebra, talvez por considerarem que “o futebol é uma caixinha de surpresas” seria muito clichê.

Abaixo listo alguns “postulados do Brasileirão”, fatores que desde que o campeonato passou a ser em pontos corridos são considerados essenciais para o sucesso de uma equipe, que foram transformados pelo certame deste ano.

O planejamento, o projeto

Quando V(W)anderlei(y) Luxemburgo conquistou o primeiro campeonato brasileiro de pontos corridos com o Cruzeiro em 2003, não se cansou de repetir que o resultado viera graças ao projeto do time mineiro; ele fez o mesmo com o Santos campeão de 2004 e, até hoje, logo que assume um novo clube diz que aceitou a proposta baseada no projeto de tal equipe. Por muito tempo tido como o melhor técnico do Brasil pela maioria da imprensa, esta engoliu a história do atual treinador do Atlético-MG como um mandamento: “Só é campeão quem tem um planejamento e um projeto”. Mas o que seriam essas duas coisas? Aí encontramos mais uma variedade de lugares comuns regorgitados pela mídia esportiva tupiniquim: Estrutura (centro de treinamento adequado, centro de recuperação física de jogadores, psicólogos, diretores de futebol etc.), pré-temporada, manutenção de grande parte do elenco, e claro, também do técnico. Pois bem, o campeão Flamengo conseguiu trangredir todas essas afirmações; o clube possui um centro de treinamento precário, viveu intenso conflito político com a licença de seu presidente por motivos de saúde, fez inúmeras contratações ao longo do campeonato e mudou de treinador. Não obstante, o segundo e terceiro colocados, Inter e São Paulo, que se consideram os clubes mais ultra-mega-super modernos da face da Terra, também presenciaram mudanças de seus comandantes ao longo do certame. Ah, não poderíamos esquecer de ressaltar a campanha do rei do planejamento professor W(V)anderley(i) Luxemburgo, que depois de demitido do Palmeiras, passou o torneio inteiro prometendo levar o Santos à Libertadores e acabou num honroso 12º lugar. É o fim do planejamento como o conhecíamos.

Vencer os jogos em casa

“Fazer a lição de casa”, é isso que técnicos e jogadores não cansaram de repetir como indispensável para o sucesso de suas equipes. O Grêmio, então, foi o aluno perfeito: em 19 jogos, 14 vitórias e 5 empates. No entanto, não contava que fora de seus domínios tivesse uma campanha de rebaixado ao vencer apenas uma partida, empatar 5 e perder 13. E assim caiu mais um postulado do Brasileirão.

A regularidade

Os especialistas não têm dúvida, o campeonato de pontos corridos premia a regularidade. O caso é que esta edição do Brasileiro premiou a última regularidade; o Flamengo passou o campeonato inteiro no meio da tabela, após um série de 10 jogos sem derrota, a equipe carioca alcançou o grupo da frente mas só chegou à liderança na penúltima rodada. O Palmeiras foi a melhor equipe do campeoanto até a rodada 34, quando deixou a liderança após 20 jogos, ou seja, os maus resultados das últimas 10 partidas da equipe de Muricy Ramalho jogaram fora a regularidade que a equipe demonstrou nas outras 18. O inverso ocorreu com o Fluminense; portanto, não se trata tanto de ser regular ao longo do campeonato e sim ter uma boa sequência de vitórias no momento certo.

Com o que foi exposto acima, não pretendo desmerecer o campeoanto de pontos corridos nem a vitória flamenguista, mas apenas demonstrar que certos discursos devem ser mudados, pois as circunstâncias de determinado campeonato fazem com que seja decidido por diferentes razões. O campeonato de 2003 foi vencido pela equipe que tinha indiscutivelmente o melhor plantel da época, 6 anos depois não temos uma situação semelhante, portanto, é errôneo pensar que o que levou o Cruzeiro a ser campeão naquele ano é o mesmo que levou o Flamengo a ser campeão neste.

Terminado o campeonato, origina-se o momento de especulações e parte da imprensa não se cansa de criar suas verdades, a frase da moda agora é: “fulano tem tudo acertado com time X, só falta o time Y liberar”. SÓ?! As equipes também não mudam muito, é só dar uma olhada no noticiário e ver que o Corinthians continua achando que pode ganhar a Libertadores com grandes nomes, o São Paulo se considera tão bem estruturado que contrata jogadores fracos tecnicamente e mentalmente achando que pode consertá-los, o Inter insiste em posar de clube mais moderno do Brasil e contrata técnico estrangeiro, o Palmeiras diz que no ano que vem tudo vai ser diferente, o Grêmio faz força descomunal para manter um ídolo portenho. O futebol brasileiro tenta ser uma ciência exata.

Rodrigo Giordano

O título se refere ao Campeonato Brasileiro de 2009; o campeonato que só é interessante pra imprensa que quer vendê-lo e para quem não torce para nenhum time que está na disputa. Provavelmente flamenguistas ou são-paulinos terminarão com um sorriso no rosto, mas esse campeonato foi tosco.

No aspecto técnico nada de muito diferente dos últimos anos; jogos truncados, poucas jogadas bonitas e os locutores abusando do: “o jogo está fraco tecnicamente mas sobrando em emoção”. Você vai dizer que o campeonato está tendo um equilíbrio impressionante, com até 6 times chegando ao fim do certame pensando em título. Mas esse equilíbrio vem do péssimo nível técnico das 20 equipes, na qual um confronto entre o primeiro e o último colocado é uma grande incógnita; os confrontos diretos entre os que disputam a taça normalmente são jogos horríveis, afinal, ambos os times têm medo de perder.

Não obstante a técnica degradante que as equipes brasileiras vêm apresentando, este campeonato teve um componente a mais para torná-lo desagradável: a arbitragem. Mas você se engana se pensa que ela anda por aí sozinha aprontando das suas, conta com a importantíssima ajuda do STJD, que aproveita este momento final para colocar suas manguinhas de fora. Exemplifiquemos:

-Vágner Love leva uma suspensão de dois jogos por uma falta que foi punida com cartão vermelho pelo árbitro da partida, ou seja, não interessa o que o homem que comanda a peleja determina, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva pune como bem entende.

-Dagoberto, contra o Grêmio, faz uma falta do mesmo nível da de Vágner e é suspenso por três jogos; Jean, no mesmo jogo, com uma falta mais leve que a dos dois citados é punido da mesma maneira; já Borges, que agrediu o volante Túlio do time gaúcho também foi suspenso por 3 jogos.

-Alan, atacante do Fluminense, desferiu uma cabeçada em Armero, do Palmeiras, que abriu o supercílio do lateral colombiano durante o embate entre ambas equipes.  Alan não foi punido, um dos juízes alegou que ele havia sofrido muitas faltas durante o jogo, entende-se: “dente por dente, olho por olho”.

Mas são, realmente, os árbitros que tem se superado; a arbitragem brasileira virou terra de ninguém. Sérgio Corrêa, o presidente da comissão de arbitragem, não se pronuncia sobre nada, simplesmente afasta os juízes que se envolvem em lances polêmicos, e Ricardo Teixeira, o presidente da CBF, está preocupado demais em leiloar amistosos da seleção e aumentar cada vez mais o caixa de uma confederação já riquíssima. Erros de arbitragem ocorreram em todas as edições do Brasileirão, isso é óbvio, mas neste eles têm se concentrado mais ao final do campeonato e influenciado muito na luta pelo título. Novamente, exemplifiquemos:

-Obina e Maurício, ambos do Palmeiras, trocam tapas e socos ao fim do primeiro tempo do jogo contra o Grêmio; ambos são devidamente expulsos por Héber Roberto Lopes (o mesmo que não quis deixar o time do Palestra Itália com dois a menos no clássico contra o Corinthians, ao dar apenas cartão amarelo a Danilo após carrinho criminoso em Jorge Hnerique).

– Hugo e André Dias, ambos do São Paulo, fizeram algo semelhante ao seus colegas palmeirenses; no jogo contra o Vitória, trocaram cabeçadas e tapas dentro da área. Leandro Pedro Vuaden (o que deixa o jogo correr) erroneamente só aplicou cartões amarelos aos dois.

Não é nem preciso citar os erros de Carlos Eugênio Simon (o que vai pra terceira Copa seguida), Elmo da Cunha e de tantos outros que erraram durante o campeonato inteiro. O que mais irrita é a falta de CRITÉRIO, cada um apita a sua maneira; um exercício simples mostra como a aplicação de diferentes critérios altera certos resultados:

-Se Vuaden tivesse apitado Grêmio x Palmeiras, somente Maurício teria sido expulso, pois já tinha amarelo (que aliás dificilmente o árbitro gaúcho teria dado). Se Héber tivesse apitado São Paulo x Vitória, Hugo e André Dias teriam sido expulsos logo no primeiro tempo do jogo que o tricolor paulista venceu por 2 a o. Se qualquer um dos vários árbitros brasileiros que veem falta em tudo tivesse apitado Grêmio x Palmeiras, teria dado pé alto de Maxi Lopez em lance que originou o gol do time gaúcho.

Não estou querendo dizer com esse texto que se certo time for campeão será de maneira injusta, pelo contrário. Só acho que muitas decisões poderiam ter dado rumos diferentes à disputa, e isso tudo por algo facilmente solucionável: o estabelecimento de um critério para toda arbitragem brasileira. Se for decidido que espirrar em campo é caso de cartão amarelo, que assim seja, desde que respeitado por todos. Porque a última coisa que um futebol tecnicamente nivelado por baixo precisa é uma arbitragem que sofra do mesmo problema. O melhor que fazemos agora é esperar pelo dia em que o campeonato seja equilibrado pelo excelente nível técnico dos competidores e ninguém nem saiba quais os nomes daqueles homens que andam pelo gramado com um uniforme diferente de todos os outros.

Rodrigo Giordano

Foram duas chances preciosas para o líder Palmeiras disparar, jogos contra Avaí e Náutico. Pela lógica, pelo menos 4 pontos o líder conquistaria. Porém, à base de muito suor, o time buscou o empate contra o Avaí para marcar um pontinho. Contra o Náutico a equipe passou longe de marcar pontos, foi um 3 a 0 categórico para o Timbu, que respira no campeonato com a força de seu estádio.

Hoje, faltando 9 rodadas para o término do Brasileirão, o Palmeiras poderia ter 10 pontos de vantagem para o segundo colocado e a única dúvida seria em que rodada a equipe paulista ergueria a taça. Os concorrentes têm colaborado para um título antecipado, São Paulo, Internacional, Atlético Mineiro e Goiás não conseguem encaixar uma seqüência de vitórias. O Tricolor teve uma brilhante ascensão no campeonato, mas pecou na hora de assumir a liderança.  O Internacional teve uma queda brusca no 2º turno que culminou com a queda do técnico Tite. A escolha do substituto foi contestável, Mário Sérgio tem um histórico recente muito ruim e seu nome não inspira confiança para uma reação do Colorado. Atlético Mineiro e Goiás não demonstraram, até agora, a regularidade necessária para a conquista do título.

Considerando que em 9 rodadas há 27 pontos em disputa, a vantagem de 5 pontos do Palmeiras não é muito significativa. Outro fator que anima São Paulo e Inter, principais perseguidores, é que o plantel palmeirense dá sinais de fraqueza e a dependência de Diego Souza, melhor jogador do campeonato brasileiro, é evidenciada pelos números: Em 4 jogos sem o meia o Palmeiras não conseguiu nenhuma vitória.

A próxima rodada pode ser decisiva, São Paulo e Palmeiras têm jogos complicados em casa contra Atlético Mineiro e Flamengo, respectivamente. Pela atual fase do rubro-negro, a tarefa do Verdão é um pouco mais indigesta. Mas se a vantagem chegar a 7 pontos, a 8 rodadas do fim,  a torcida palmeirense pode começar a contar os dias para comemorar o seu 5º título brasileiro. Porém, se cair para 3 a diferença entre os paulistas, o favoritismo pode pular o muro e a soberania são-paulina pode se manter.

Kim Paiva (colaborador)