Justiniano escolheu o time para o qual iria torcer aos quatro anos de idade. Optou pelo então campeão do título que duraria cem anos, o  quarto centenário da cidade de São Paulo.

O que Justiniano não sabia era que os 23 anos seguintes à decisão infantil marcariam sua vida para sempre. Nesse período o Sport Club Corinthians Paulista pasaria pelo maior jejum de títulos de sua história  e – consequentemente, talvez – uma doença instalaria-se em seu jovem coração.

Mesmo muito depois da equipe voltar a levantar o caneco, os anos de sofrimento na torcida enfraqueceram demais o já debilitado órgão muscular oco. A solução era única: o transplante.

Após anos na fila de espera, vem a ligação de Dr. Orfeu, seu médico há mais de duas décadas.

– Temos um novo, seu Justiniano, mas eu preciso avisar uma coisa. Conhecendo o senhor como eu conheço, preciso quebrar o protocolo e dizer que o falecido era palmeirense.

– Um coração de porco? Jamais! Passe-o adiante.

Apesar do ímpeto, foi a decisão mais difícil da vida de Justiniano. Temiar ter desperdiçado a única chance. Optara viver corintiano a viver com a dúvida.

Três meses depois vem a nova chamada. Dessa vez Dr. Orfeu mantém o sigilo.

– Ora, doutor, me falou da primeira me fala da segunda. De quem era? – ouve a resposta – De mulher? De mulher… De mulher! Está bem doutor, vamos à mesa.

Um ano depois do transplante de sucesso Dr. Orfeu encontra a esposa de Justiniano e pergunta como vai com o novo coração.

-Ah, uma maravilha doutor. O Justiniano está tão carinhoso e atencioso comigo, começou a me acompanhar aos lugares que quero ir e se preocupa mais com a dieta e com a saúde agora. Acredita até que topou fazer comigo as aulas de dança que eu sempre sonhei? Ele está um amor.

Dr. Orfeu dormiu naquela noite, e todas as outras até falecer, pensando se contar a verdade a Justiniano foi a decisão correta. De qualquer modo, nunca mais fez um transplante.

Felipe Blumen

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O tri-campeonato da Copa do Brasil conquistado pelo bom e consistente time do Corinthians diante de um Internacional  alardeado e decepcionante veio para consagrar o bom momento da equipe do Parque São Jorge.

Se há cerca de 1 ano e meio o cenário era o mais desolador possível com o rebaixamento para a série B do Campeonato Brasileiro, hoje os corintianos tem bons motivos para comemorar no que se refere às atuações do time dentro das 4 linhas . Desde a impecável campanha de ascenção à série A, passando pelo título invicto do Campeonato Paulista e finalmente(?) o troféu da Copa do Brasil que permitirá ao clube disputar a almejada Libertadores no ano de seu centenário. Vale destacar, tudo isso mantendo apenas um técnico à frente do time durante o período.

Se dentro da cancha as coisas vão bem, a torcida alvi-negra não pode se iludir com os títulos conquistados e passar a aplaudir incondicionalmente sua diretoria, liderada pelo presidente Andrés Sanchez. O clube segue com uma dívida que parece “insaldável”  e o período de bonança não parece vir acompanhado de investimentos em infra-estrutura que são fundamentais a longo-prazo.  Com uma estrutura aparentemente frágil, as faixas que hoje são usadas como adorno de comemoração, amanhã poderão ser usadas como lenço para conter as lágrimas do insucesso. Vale lembrar que Alberto Dualib foi o presidente mais vencedor da história corintiana e, quando vencedor, era aplaudido.

Em meio às festas e ao foguetório, a cúpula já precisa dar início ao planejamento para o ano que vem, se deseja, finalmente, fazer um bom papel na competição mais importante do continente. A esperança e a cobrança da torcida será grande no ano centenário.

Caio Hornstein