“PROCURA-SE UM PÉ ESQUERDO.” Este foi o anúncio que me chamou a atenção quando lia os classificados um tempo atrás. Comentei por alto com Preta, que varria a sala.

– Veja, Preta. Era só o que faltava. Algum infeliz conseguiu perder o pé.

 Para minha surpresa, ela respondeu:

– Eu sei, foi seu Tonho. Passou aqui outro dia perguntando se eu tinha visto um pé assim e assado. Coisa de maluco.

Por um instante não soube de quem se tratava. Depois fiquei desesperado. “O Tonho não, qualquer um menos o Tonho”, pensei. Não era para menos. Afinal, no dia seguinte seria a final da Copa do Bairro e o Tonhão era o ponta-direita do meu time. O problema precisava ser solucionado com urgência. Fui à casa dele.

– Você é um estúpido – constatei ao vê-lo sem o pé.

– Não enche! Vamos, me ajude a achar o pé. Amanhã é…

– A final, eu sei. Como é esse pé?

– É o esquerdo.

– Isso eu sei, vi no jornal. Mas como lhe parece?

– Bonito. Está bronzeadinho porque eu passei o fim de semana em Santos.

– Estou falando sério. Pense, homem!

– Está bem. Tem cinco dedos, em ordem crescente de tamanho, do mindinho para o dedão.

– Isso não ajuda. Qual o tamanho?

– Costumava calçar quarenta e dois.

– E de altura?

– De altura? É mais ou menos assim – faz uma medida com as mãos – vai do chão até o tornozelo.

– Peludo?

– Acho que tem um pelo solitário no peito. E meia dúzia na chureula.

– Chu o que?

– Chureula. A parte de cima do dedão.

– Não importa! Isso já é alguma coisa, mas ainda está muito genérico. Tem alguma marca de nascença?

– Uma cicatriz perto do calcanhar, mas é quase imperceptível. – Procura fundo na memória. –Ah! Eu tive um olho de peixe um tempo atrás, pode ser que ainda tenha marcas.

– Nojento, mas pode ser útil.

Tonho começa a ficar desesperado:

– Meu deus, a final! Como vamos ganhar dos Desquitados sem a minha canhota? Você sabe que a minha direita não serve nem para subir no ônibus.

Realmente, não havia jeito de jogar sem ele. O Desquitados era forte, mas iam jogar a final sem o lateral-esquerdo, que estava suspenso. O Tonhão jogava ali, era o caminho da vitória.

– Calma que nós vamos achar esse pé. O que ele faz, por onde costuma andar?

– Bom, eu vejo sempre ele na companhia do pé direito.

– Este aqui? – perguntei olhando para o pé que lhe restava. Sem esperanças de que aquele pé pudesse ser útil no jogo de amanhã.

– Exato. É quase igual ao outro, exceto por esse joanete.

– Espere um pouco. Você não tinha uma fitinha do Senhor do Bonfim amarrada nesse pé, que eu te trouxe da Bahia?

– Tinha sim, mas era no esquerdo. Aliás, está aqui – tira o adereço do bolso –, mas que me adianta a fita se o pé eu não acho? E está cortada ainda.

– Você não percebe, Tonho? Se a fita está aqui, cortada, e o pé não, é porque você não o perdeu. Ele foi roubado!

– Não é possível. Como me roubariam o pé sem que eu percebesse?

– E por acaso não foi esses dias que você chegou bêbado cambaleando em casa?

– É isso! Foi no dia que eu encontrei o Barriga, capitão do Desquitados. Larápio! Quis me tirar do jogo.

– Safados. Mas agora não adianta reclamar, vamos dar um jeito nesse pé.

Já sabendo quais mãos estavam sobre o pé, restava pensar em como solucionar o problema da canhota de Tonhão. E até hoje me orgulho da decisão que tomei naquela tarde de sábado.

Quem olhar no jornaleco do bairro vai ver que o Desquitados perdeu aquela final por um a zero com gol de Tonhão. Um chute indefensável, com a bola fazendo uma das maiores curvas que o mundo já viu. A “bola curva de Tonhão” apareceu até no Fantástico, com uns cientistas tentando desvendar o segredo do petardo. Não conseguiram porque não foram ao jogo naquele domingo. Quem foi, jura que viu Tonhão jogando com dois pés direitos.

Felipe Blumen

Justiniano escolheu o time para o qual iria torcer aos quatro anos de idade. Optou pelo então campeão do título que duraria cem anos, o  quarto centenário da cidade de São Paulo.

O que Justiniano não sabia era que os 23 anos seguintes à decisão infantil marcariam sua vida para sempre. Nesse período o Sport Club Corinthians Paulista pasaria pelo maior jejum de títulos de sua história  e – consequentemente, talvez – uma doença instalaria-se em seu jovem coração.

Mesmo muito depois da equipe voltar a levantar o caneco, os anos de sofrimento na torcida enfraqueceram demais o já debilitado órgão muscular oco. A solução era única: o transplante.

Após anos na fila de espera, vem a ligação de Dr. Orfeu, seu médico há mais de duas décadas.

– Temos um novo, seu Justiniano, mas eu preciso avisar uma coisa. Conhecendo o senhor como eu conheço, preciso quebrar o protocolo e dizer que o falecido era palmeirense.

– Um coração de porco? Jamais! Passe-o adiante.

Apesar do ímpeto, foi a decisão mais difícil da vida de Justiniano. Temiar ter desperdiçado a única chance. Optara viver corintiano a viver com a dúvida.

Três meses depois vem a nova chamada. Dessa vez Dr. Orfeu mantém o sigilo.

– Ora, doutor, me falou da primeira me fala da segunda. De quem era? – ouve a resposta – De mulher? De mulher… De mulher! Está bem doutor, vamos à mesa.

Um ano depois do transplante de sucesso Dr. Orfeu encontra a esposa de Justiniano e pergunta como vai com o novo coração.

-Ah, uma maravilha doutor. O Justiniano está tão carinhoso e atencioso comigo, começou a me acompanhar aos lugares que quero ir e se preocupa mais com a dieta e com a saúde agora. Acredita até que topou fazer comigo as aulas de dança que eu sempre sonhei? Ele está um amor.

Dr. Orfeu dormiu naquela noite, e todas as outras até falecer, pensando se contar a verdade a Justiniano foi a decisão correta. De qualquer modo, nunca mais fez um transplante.

Felipe Blumen

Peroba neles

18/04/2010

A sociedade espera, mesmo que seja constantemente hipócrita, uma postura honesta e ética por parte das categorias trabalhistas que a compõem.  Cobra-se que o médico desempenhe suas funções zelando por seus pacientes, os professores tenham comprometimento com os alunos e, principalmente, que os políticos não se corrompam. Uma categoria profissional, no entanto, parece ser imune às cobranças por ética, tanto por boa parte da imprensa quanto da sociedade: os futebolistas.

Uma prerrogativa básica dos jogadores de futebol é a de que os fins justificam os meios. É a famosa “Lei de Gérson” – conceito que alude ao meia campeão do mundo em 1970, que em um comercial de tabaco exaltava aqueles que “gostavam de sair vantagem em tudo”- , seguida à risca pela classe.  Atirar-se ao chão como um artista circense, simular dores incríveis, marcar gols usando as mãos: são atos corriqueiros, tão arraigados na cultura dos boleiros, que parecem não suscitar objeções, além de serem endossados pelos aplausos das torcidas beneficiadas. As atitudes dos torcedores são uma evidência de que o futebol é, de certo modo, um reflexo da própria sociedade. A intenção dos atletas é clara: ludibriar os dois olhos do árbitro; a vergonha, inexistente: não há qualquer temor de se exporem ao ridículo ao serem flagrados pelas câmera de TV e os milhões de olhos dos telespectadores.

A cobrança toda acaba por recair no árbitro – figura pequena dentro do futebol milionário – que passa a ter a função de interpretar simulações, e não marcar simplismente aquilo que vê. Quando um gol é marcado com as mãos, por exemplo,  as acusações são focadas no árbitro que valida o gol, ignorando o espírito vigarista do atleta infrator que, muitas vezes, é taxado de “esperto”.

É evidente que tais atitudes não são exclusividade dos jogadores brasileiros- o escandaloso gol de mão de Henry nas eliminatórias, que classificou a França à Copa do Mundo de 2010 vem à cabeça-, embora sejam características frequentes nos esportistas nacionais.

No ano passado, o jogador brasileiro naturalizado croata, Eduardo Silva, atuando pelo Arsenal,  simulou escanadalosamente um pênalti- validado pelo árbitro- em partida da Champions League. O atleta foi punido com uma suspensão de dois jogos. O maior castigo, no entanto, veio das arquibancadas: Eduardo foi vaiado por sua própria torcida a cada vez que pegava na bola, em jogo posterior, em razão de sua desonestidade. Alguém consegue imaginar atitude semelhante em terras tupiniquins? Em caso semelhante, no máximo, o árbitro que  marcou o pênalti seria suspenso por algumas partidas.

Na ausência de atitudes enérgicas por parte das esferas superiores do esporte, a imprensa nativa deveria se encarregar de execrar as desonestidades dos jogadores, o que, evidentemente, não ocorre. Dificilmente se vê na imprensa alguma discussão em relação à postura mesquinha dos atletas; não se mexe nesta ferida, talvez pelo fato da própria imprensa estar em débito com a lisura. Paradoxalmente, discussões infindáveis sobre arbitragem abundam nos programas esportivos.

A título de curiosidade, segue o link do Youtube com o comercial que deu origem à famigerada “Lei de Gérson”, além da constatação de que há muito tempo publicitários e jogadores de futebol nos brindam com propagandas ridículas.

Caio Hornstein