O maior do mundo

21/03/2012

A geração de pessoas que nasceram nos anos noventa é a parcela da população brasileira que, pela primeira vez na história, tem enorme acesso ao que acontece no futebol fora do país. Essa geração, portanto, teve a oportunidade de crescer acompanhando os certames internacionais e suas grandes estrelas.

Para exemplificar, uma pessoa com uma programação esportiva básica em uma operadora de TV a cabo pode assistir, hoje, aos campeonatos espanhol, inglês, alemão, francês, italiano, português, russo, japonês, holandês e estadunidense. Pelo menos metade desses já podia ser vista naquela época.

Isso tornou possível que, nos últimos vinte anos, as pessoas que já nasceram órfãs de Pelé, Maradona, Garrincha, Cruiyff, Rivellino, Sócrates, Zico e afins, pudessem acompanhar, além das carreiras dos recentes ídolos tupiniquins – jogando por aqui ou por lá –, as carreiras das grandes estrelas nascidas no além-trópico.

Se antes seria impossível um brasileiro dizer que o melhor jogador que já havia visto jogar não compartilhava de sua nacionalidade, pois só o via em campo, de fato, durante uma copa do mundo ou em algum lance repetido pela viciada e fechada programação da TV aberta nativa, agora não.

Não é raro, por exemplo, ver alguém deste recorte de população afirmando que o melhor jogador, para ela, de todos os tempos é Ronaldo, Zidane ou Romário – craques que fizeram a maior parte de suas carreiras no estrangeiro.

Compreendida essa especificidade histórica dos sub-25, vale ressaltar que também não há aqui uma forte ligação com os  ídolos do passado senão por resquícios de outras relações, como as de ídolo do time, do pai, do DVD, etc.

Isso explica por que essas pessoas tem a capacidade de perceber – e afirmar – sem dificuldades que um jogador não-brasileiro é não somente o melhor jogador da atualidade como o melhor que já pisou peelos gramados desse mundo. Elas podem se considerar, nesse sentido, privilegiadas.

Isso explica também por que não há a necessidade de dizer que ele não ganhou todas as copas de Pelé ou sequer a de Maradona. O nível que atingiu, e que pode ser comprovado duas vezes por semana com enchurradas de gols, assistências e dribles, já é tamanho que não importa a camisa que está em seu corpo, apenas seu puro, simples e lindo futebol.

É importante que, para além do foco geracional, as pessoas de outras idades saiam da zona de conforto que é o olhar distanciado do tempo. É sempre mais fácil afirmar que o melhor jogador é aquele de quem, já aposentado, é possível avaliar toda a carreira.

Vencidas estas barreiras é possível que todos os entusiastas ludopédicos possam afirmar em algum momento aquilo que já hoje ulula diante de nós.

Torçamos para que, o mais rápido possível, perca-se o receio em confessar que o maior jogador de todos os tempos não é brasileiro, está em atividade, ainda não atingiu seu auge e atende pelo nome de Lionel Messi.

 

Felipe Blumen

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Justiniano escolheu o time para o qual iria torcer aos quatro anos de idade. Optou pelo então campeão do título que duraria cem anos, o  quarto centenário da cidade de São Paulo.

O que Justiniano não sabia era que os 23 anos seguintes à decisão infantil marcariam sua vida para sempre. Nesse período o Sport Club Corinthians Paulista pasaria pelo maior jejum de títulos de sua história  e – consequentemente, talvez – uma doença instalaria-se em seu jovem coração.

Mesmo muito depois da equipe voltar a levantar o caneco, os anos de sofrimento na torcida enfraqueceram demais o já debilitado órgão muscular oco. A solução era única: o transplante.

Após anos na fila de espera, vem a ligação de Dr. Orfeu, seu médico há mais de duas décadas.

– Temos um novo, seu Justiniano, mas eu preciso avisar uma coisa. Conhecendo o senhor como eu conheço, preciso quebrar o protocolo e dizer que o falecido era palmeirense.

– Um coração de porco? Jamais! Passe-o adiante.

Apesar do ímpeto, foi a decisão mais difícil da vida de Justiniano. Temiar ter desperdiçado a única chance. Optara viver corintiano a viver com a dúvida.

Três meses depois vem a nova chamada. Dessa vez Dr. Orfeu mantém o sigilo.

– Ora, doutor, me falou da primeira me fala da segunda. De quem era? – ouve a resposta – De mulher? De mulher… De mulher! Está bem doutor, vamos à mesa.

Um ano depois do transplante de sucesso Dr. Orfeu encontra a esposa de Justiniano e pergunta como vai com o novo coração.

-Ah, uma maravilha doutor. O Justiniano está tão carinhoso e atencioso comigo, começou a me acompanhar aos lugares que quero ir e se preocupa mais com a dieta e com a saúde agora. Acredita até que topou fazer comigo as aulas de dança que eu sempre sonhei? Ele está um amor.

Dr. Orfeu dormiu naquela noite, e todas as outras até falecer, pensando se contar a verdade a Justiniano foi a decisão correta. De qualquer modo, nunca mais fez um transplante.

Felipe Blumen

Explica-se o título: Caio e Rodrigo foram ao Canindé no dia 14 de agosto para ver Portuguesa x Vasco, o primeiro ficou na torcida lusitana, enquanto o segundo acompanhou tudo da torcida cruzmaltina. Aqui eles contam cada um sua versão para o clássico dos times portugueses do Brasil.

O LADO DA PORTUGUESA

Chego ao Canindé e não tenho dificuldades para comprar ingressos. Toda a atmosfera que cerca o Canindé me faz lembrar um estádio do interior. A torcida da Portuguesa anda desconfiada com o time, vindo de 3 derrotas seguidas, mas mesmo assim comparece em bom número à estréia de seu novo técnico, Renê Simões. Mesmo assim, em menor número em relação à torcida do Vasco, como já era de se esperar. A torcida rubroverde demonstra diferenças em relação aos grandes times de massa. Obviamente é menor e aparenta ser uma torcida envelhecida, embora ainda se veja muitos pais levando os pequenos filhos vestidos da cabeça aos pés com o uniforme da Portuguesa, de forma a incentivá-los a herdarem a sua paixão. Justamente pelo fato de ser uma torcida “mais vivida”, talvez não seja tão efusiva e vibrante, mas sem dúvida é doentiamente apaixonada, verdadeiramente fiel. Se o time hoje em dia tem poucas perspectivas de ser campeão em algum torneio relevante, a torcida parece carregar uma esperança e fazer uma cobrança digna de torcedores de um time campeão. Não ouse dizer a um torcedor da Lusa que ela é time pequeno.

Análises à parte, falemos do jogo. A Portuguesa começou o jogo bem, logo aos 4 minutos abriu o placar com Dinei após boa jogada de Fellype Gabriel (que viria a se machucar logo em seguida, sendo substituído). Após o gol a Lusa permaneceu melhor, enquanto o Vasco parecia não demonstrar reação. Aos poucos a equipe cruzmaltina foi equilibrando o jogo até passar a ter domínio. Apesar desta superioridade vascaína, foi a Portuguesa que poderia ter ampliado o placar no primeiro tempo em finalização de letra de Héverton que exigiu grande defesa do goleiro Fernando Prass.

O segundo tempo começou como o primeiro: a Portuguesa pressionando e um Vasco incapaz de reagir. Porém, aos 11 minutos, Carlos Alberto cobrou falta pela direita e colocou a bola na cabeça de Gian, que empatou a partida. Explosão da torcida Vascaína, que teve mais um motivo para comemorar segundos após o gol: Ygor, da Portuguesa, foi expulso após receber o segundo cartão amarelo. Minutos depois Ernani, do Vasco, também recebeu segundo amarelo e deixou ambas equipes em igualdade numérica.

Após as expulsões a Portuguesa voltou a oferecer perigo, desperdiçando boas oportunidades em jogadas de Edno e Preto. Mesmo não jogando um grande futebol, o Vasco dançou o vira aos  37 minutos, quando Alex Teixeira fez boa jogada pela direita, tocou para Elton, que dentro da área cruzou para Adriano empurrar para as redes.

A Portuguesa ainda tentou mostrar alguma reação, mas parou na retranca vascaína. Nos acréscimos, Enrico ainda sofreu pênalti de Preto, que acabou expulso; Elton cobrou e marcou o terceiro gol vascaíno, aos 49 minutos. Fim de jogo no Canindé. Portuguesa 1 x Vasco 3. Placar que de modo algum reflete o que foi a partida, embora não se possa dizer que foi injusto.

De um lado, a arquibancada visitante repleta, festeja mais uma vitória de seu time com a certeza de que a série A no ano de 2010 já é uma realidade. Do outro, a torcida da Lusa sai abatida e revoltada, vendo a quarta derrota seguida de sua equipe na competição. Ofensas aos jogadores são proferidas a todos pulmões, sendo o atacante Edno o principal alvo dos ataques .

Caio Hornstein

O LADO VASCAÍNO

Imagine um típico filme de romance, com mocinho, mocinha e vilão. Logo no começo algo dá errado a fim de afastar o óbvio enlace entre os protagonistas de bom coração. O mocinho, então, passará o resto da trama buscando encontrar uma solução que acarrete em um final feliz. Pois foi essa sensação que ficou para quem encarou a partida pelo lado da torcida do Vasco da Gama. Como manda o roteiro, o vilão rubroverde logo tratou de dar um golpe no time carioca, Dinei abriu o placar no Canindé. A torcida vascaína, porém, me parecia já ter assistido esse filme e entoou seus gritos para fazer com que seus heróis não desistissem: “Vamos virar Vasco!”, “O Vasco é o time da virada…”.

A alcunha que a equipe carrega nunca foi tão sugestiva para seus jogadores, era o momento de buscar o melhor caminho até o gol; e este parecia bem navegável, o lado esquerdo da equipe paulista parecia um imenso oceano esperando a chegada de alguém. O problema é que o volante Mateus nunca havia navegado por aqueles mares antes, estava improvisado na lateral-direita vascaína.

O segundo tempo veio e foram necessários 11 minutos de sofrimento para o zagueiro Gian igualar a partida; a partir daí o certame mais se pareceu com uma batalha, Ygor, volante da Lusa, foi expulso. Explosão vascaína, mas por pouco tempo, Ernani também foi mandado para fora e as equipes ficaram iguais em número de guerreiros, digo, de atletas. Um certa pressão lusitana gerou um anticlímax na torcida alvinegra, no entanto, tal sentimento se esvaiu aos 37 minutos quando um rapaz chamado Adriano tratou de mudar o rumo das caravelas cruzmaltinas. O bastião da justiça dentro de campo André Luiz de Freitas Castro ainda expulsou Tiago Gomes e Preto, acabando com as chances do vilão rubroverde. Este, já moribundo, ainda teve que ver Elton, que já tinha entendido que o caminho mais fácil pra salvar a mocinha era contornando a África, colocar ponto final na partida.

Destarte, a torcida vascaína deixou o Canindé como se fosse sua própria casa e a torcida da Portuguesa entendeu que enfrentar um adversário mocinho e descobridor não é tarefa das mais fáceis.

Rodrigo Giordano

Pega! Pega!

20/07/2009

O futebol divertido, gozador e irreverente está perdido. Pois o que se viu nesse sábado no São Januário foi ridículo. O garoto do time da casa Philippe Coutinho, foi advertido pelo árbitro por estar pedalando para cima dos marcadores. “Fiz para preveni-lo de futuras pancadas”, bela justificativa.

O que seria desse coitado em outra época do futebol? Pois como dito por Mouzar Benedito em uma crônica: “Garrincha chamava os marcadores de ‘João’ e dava-lhes um baile, coisa que hoje seria considerada humilhação e justificaria aos adversários baixarem-lhe o sarrafo – com a complacência dos comentaristas esportivos: ‘Ah, mas ele provocou…’ ”.

E não precisamos ir tão longe. Renato Gaúcho, Romário, Edmundo, Vampeta, Valdívia, faziam a festa das torcidas (de seus times, claro) dentro e fora de campo. Viola, que comemorou um gol imitando um porco em um Corinthians x Palmeiras, hoje certamente tomaria um cartão amarelo.

As declarações provocantes em semanas de clássicos viraram combustível para pancadaria, de jogadores e de bandidos torcedores.

A onda do “politicamente correto” está tirando o brilho do futebol. Temos que provocar, zombar, driblar, pedalar, chapelar. Mas claro,”nunca deixando de respeitar o adversário”

Felipe Blumen

Ser lúdico ajuda

13/06/2009

Concordo plenamente com o que escreveu o amigo Caio aqui embaixo. No entanto, acho necessário uma reflexão maior sobre o fanatismo futebolístico e sua relação aparentemente intrínseca com o irracional. Tomar isso como verdade absoluta tem levado a certas transgressões.

Na minha opinião, fanático (lembre-se que estamos no terreno do futebol apenas) é aquele que conhece a história de seu time, que vai ao estádio, que sabe a escalação, que acompanha todos os jogos, campeonatos e tudo mais que ao nome do time estiver relacionado, e mais importante, aquele que mesmo sabendo da inferioridade de seu time em relação ao outro (o que, convenhamos, exige uma certa dose de racionalidade e reflexão) acredita que a vitória pode acontecer.

O fanatismo futebolístico permite sim, a discussão saudável. Peguemos esse blog como prova empírica: é escrito por três jovens torcedores, cada um torce para um time diferente, sendo que estes são rivais entre si; todos se consideram fanáticos e na maioria das vezes chegamos em consenso. Isso acontece porque achar o Dentinho melhor que o Cristiano Ronaldo não é fanatismo, é burrice; discutir se o Flamengo tem mais tradição que o Grêmio é sem fundamento; não concordar que seu próprio time só venceu em razão de ajuda erro da arbitragem é não querer enxergar a verdade. Portanto, os torcedores comuns que aderem a certas irracionalidades como as citadas acima se aproximam de uma linha tênue que os separa dos vândalos de torcidas organizadas, que nada mais fizeram a não ser instituir um amedrontamento ao jogo de futebol e afastar as famílias dos estádios. Estes, por alguma razão (ajuda de dirigentes?), acharam ter a prerrogativa de se considerarem mais torcedores do que os comuns, e tomaram, erroneamente, a alcunha de verdadeiros fanáticos. Vemos, e muito mais que isso, sentimos o resultado de tal processo.

O grande problema é que o fanatismo por um time vem cada vez mais se separando do fanatismo pelo futebol. Já ouvi muitos relatos de pessoas mais velhas dizendo que iam assistir a jogos de times que não eram os seus simplesmente pelo prazer de assistir a uma partida de futebol; isso está se esvaindo. E para mim a razão disso é o argumento apresentado acima: as pessoas gostam cada vez mais apenas do seu clube do que do futebol por si só. Claro que certas discussões não chegam a lugar nenhum, mas para quem gosta de futebol, opiniões que são apenas opiniões não interessam, necessita-se do argumento, que gera o contra-argumento e mesmo assim, muitas vezes consensos não são atingidos; algumas vezes o resultado é frutífero, como este blog.

Rodrigo Giordano

É engraçado observar o poder de transformação que o futebol exerce no comportamento dos fanáticos.

Quando se trata de futebol até a mais sisuda das pessoas perde a compostura e parece esquecer os padrões de civilidade que tanto faz questão de manter em outras ocasiões. Os mais tímidos também tem seu comportamento alterado quando se trata de ludopédio : soltam em alto e bom tom os gritos contidos , sentindo-se protegidos e camuflados em meio à multidão. Os agressivos também aproveitam o momento e praticam suas perversidades ,ocultados em meio a um mar de camisas semelhantes.

Defendemos com tamanho vigor os times para o qual torcemos porque isso acaba-nos sendo uma característica marcante , e de certo modo nos caracteriza diante da sociedade como se fôssemos um reflexo dos estereótipos atribuídos aos nossos times.  Em muitos casos torcer para um time é como ser guardião de uma herança familiar imensurável.

O futebol exerce uma influência tão grande que atrai até mesmo os mais racionais e intelectuais , embora seja , na perspectiva do torcedor , uma atividade indubitavelmente irracional. Para o torcedor fanático o futebol transcende a atribuição de entretenimento . É religião para os céticos , forma um certo tipo sincretismo religioso para os crentes.  Torcemos , sofremos , gastamos milhares , alguns até enfartam , por algo que não traz qualquer benefício prático à nossa vida.

Sem dúvida o grande mérito do futebol está naquilo que o cerca . Futebol não é só 90 minutos , 22 jogadores e 2 balizas e bilhões de dólares.  Futebol não pode ser explicado em números , pois ele não é só um esporte , não é exato , não fica restrito às suas regras. É sobretudo a história de pessoas , anônimos ou ilustres.

O fanatismo pelo futebol pode ser explicado justamente pelo fato de ser irracional . São assim as melhores coisas da vida : a amizade , o amor e um grito de filho da puta na arquibancada.

Caio Hornstein