Várias vitórias do Boca Juniors e do River Plate sobre times brasileiros no final dos anos 90 e começo dos anos 00 fizeram com que nascesse uma das maiores falácias sobre o futebol argentino atual, a de que apenas esses dois times prestam. A imprensa esportiva brasileira, muito mal informada, passou a desdenhar os torneios continentais em que ambos não participavam, dizendo que as equipes brasileiras que disputavam tais competições teriam um caminho fácil pela frente. Nem mesmo as crises pelas quais Boca e River vêm enfrentando desde a metade da década atenuou tal situação; foi preciso o Estudiantes vencer o Cruzeiro em pleno Mineirão, na final da Libertadores de 2009, para as equipes argentinas voltarem a ser temidas. Mas o Estudiantes tinha Verón, e a mídia brasileira tratou de rotular o time de La Plata como um time razoável com um jogador brilhante, ignorando as ótimas atuações de Andújar, Angelleri e Boselli.

O início da Taça Libertadores de 2011 e o torneio sul-americano sub-20 possuem ótimos exemplos para mostrarmos como a suposta superioridade do atual futebol brasileiro sobre o atual futebol argentino é uma mentira. Fluminense x Argentinos Juniors: o atual campeão brasileiro era dado como favorito absoluto pela mídia tupiniquim, afinal, jogava em casa e o adversário argentino não vestia azul e amarelo, nem branco e vermelho, tampouco tinha um craque conhecido. Talvez os “especialistas” não soubessem que o Argentino Juniors havia vencido o Torneiro Clausura 2009-10, ou seja, também havia sido campeão nacional no mesmo ano que o tricolor carioca (apesar do Clausura terminar em junho). O argumento que tenta pormenorizar a “evidente” superioridade de nosso futebol sobre o deles é ainda pior, pois vem carregado de preconceito: “time argentino sempre complica, muita catimba, duas linhas de quatro, entradas mais fortes”, ou seja, um time argentino nunca vence um brasileiro porque é simplesmente melhor técnica ou taticamente. Pois bem, o Argentino Juniors iniciou a partida no Engenhão num 3-4-3, poucas foram as jogadas mais ríspidas e a equipe de Pedro Troglio não se limitou aos contra-ataques apenas, pelo contrário, por várias vezes esteve melhor na partida do que o Flu, num jogo marcado pelo equilíbrio; o meio-campista Mercier e o veloz Niell jogariam fácil numa equipe que estreia na Libertadores com Diguinho e Williams no time titular, Salcedo é um centroavante que anda em falta no futebol brasileiro e Oberman poderia ser mais um desses camisas 10 argentinos que vêm se multiplicando em nossos campos. Em Brasil x Argentina, pelo torneio sub-20, o time brasileiro era evidentemente mais forte do que a seleção albiceleste, porém, os garotos brasileiros, tomados pelo preconceito que já atingiu o senso comum, acharam que tinham que mostrar aos argentinos que também sabiam bater. Resultado: Juan expulso logo no começo do jogo por dar um soco no atacante adversário dentro da área, 2 a 1 Argentina.

Niell, 1,62m, deixou dois de cabeça no Flu...

É claro que o campeonato brasileiro é mais forte do que o campeonato argentino, mas convenhamos, o Brasil vive uma época muito mais próspera economicamente e seus clubes possuem mais capacidade de investimento; no entanto, se isso constitui uma superioridade razoável, não é tanto quanto que se propagandeia na mídia nacional, e isso fica explícito por uma simples conta de proporcionalidade: Brasil e Argentina possuem um número próximo de jogadores de sucesso nas principais ligas da Europa, mas nós temos uma população de 180 milhões de habitantes, enquanto eles têm 40 milhões. O que torna ainda mais contraditória a visão de que nós temos times técnicos e eles equipes batalhadoras é a importação de meias armadores: Dário Conca e Walter Montillo foram os melhores jogadores do campeonato do ano passado, e ainda há D’Alessandro e Botinelli. Portanto, desinformação e preconceito, além de uma grande vontade de parte da mídia em exacerbar a rivalidade entre ambos os países, acabaram por formar uma visão comum no público, nas comissões técnicas e até nos jogadores, da falta de técnica dos jogadores argentinos que atuam no futebol local, sempre em contrariedade ao “futebol muleque-ziriguidum-chuteira rosa-moicano-pedalada-samba” do Brasil. Nem mesmo os altos graus de miopia que acometiam a visão de Nelson Rodrigues o impediriam de enxergar este novo fenômeno do futebol brasileiro: um vira-lata metido a cachorro de burguês.

Rodrigo Giordano

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O milagre da bola

19/01/2011

Quando escrevi a minha primeira postagem neste blog, há cerca de um ano e meio, fiz questão de exaltar a importância do futebol não apenas como o esporte interessantíssimo que de fato é, mas por sua relevância social e histórica. Se formos nos aventurar a estudar a história do ocidente no século XX, fatalmente nos defrontaremos com episódios em que o referido esporte exerceu um papel determinante no imaginário das massas. O genial Nelson Rodrigues cunhou a expressão “complexo de vira-lata” após a mais dolorosa derrota do futebol brasileiro em todos os tempos, na final da Copa do Mundo de 1950. Segundo o célebre dramaturgo, aquela derrota para o Uruguai havia reforçado o espírito do brasileiro se sentir subjugado, de não se deixar levar a sério pelo resto do mundo – não só no que se referia ao futebol.

Se a Copa do Mundo de 1950 tivera como sequela um abatimento profundo do povo brasileiro, a edição de 1954, disputada na Suiça, teve um significado completamente oposto para os alemães. A vitória inesperada da seleção da Alemanha Ocidental frente a poderosa Hungria do craque Puskas, na final da competição, encheu de ânimo o povo alemão, que finalmente pode erguer a cabeça e esquecer de seu terrível passado recente, dando início a uma incrível recuperação econômica. Muito além da façanha esportiva, a vitória alemã em 4 de julho de 1954, em Berna, é tida pelos alemães como um marco que os fez recuperar a auto-estima no pós-guerra.

É justamente sobre esse assunto que o filme O Milagre de Berna (Das Wunder von Bern) trata. A película lançada em 2003, do diretor Sönke Wortmann, tem como objetivo exaltar o improvável triunfo da seleção alemã e, por esse motivo, adota um tom irritantemente patriótico. No filme,os adversários alemães na competição são citados apenas de passagem e o hino alemão é cantado a plenos pulmões pela ensandecida torcida nas arquibancadas. O polêmico gol anulado que Puskas marcou pela Hungria no final da peleja não é sequer citado, assim como o possível uso de substância ilíticas pelos jogadores alemães durante o intervalo. O apelo patriótico, no entanto, parece ter funcionado: o filme foi um enorme sucesso de bilheteria na Alemanha.

O personagem que conduz a história é o fictício Matthias, um  garoto apaixonado por futebol que, por acaso, é amigo daquele que seria o herói da conquista alemã, responsável por marcar o gol do título, Helmut Rahn. A família de Matthias é um síntese dos tormentos da Alemanha nos anos que sucederam 1945: seu pai volta de uma campo de trabalhos forçados na União Soviética após 13 anos tido como prisioneiro e, atormentado, não sabe mais lidar com a família; seu irmão mais velho não se conforma com o abatimento e conformismo que haviam tomado conta do país, além de ter um enorme rancor do regime nazista, e por essa razão abandona a família e muda-se para a Alemanha Oriental na busca de uma nação com mais ideais por seguir. Apesar da louvável tentativa de tentar traçar um panorama agruras familiares daquele período, todos os conflitos dos personagens parecem pouco convincentes, quase caricatos.

Apesar de alguns excessos, o diretor procurou ter esmero em se ater às factualidades. As cenas que retratam a partida derradeira entre Alemanha e Hungria são muito bem feitas e os gols foram minuciosamente ensaiados para que as jogadas fossem muito parecidas com as originais. O estádio está igualzinho ao que aparece nas gravações da época. Parece que fomos transportados para 1954.

“O Milagre de Berna” não é um grande filme. Os personagens são rasos, o didatismo do diretor chega a ser irritante. No entanto, vale a pena assisti-lo para saber um pouco mais  sobre a interessante história da desacreditada seleção alemã ,composta por jogadores amadores, que bateu a poderosíssima Hungria, que estava invicta há mais de 4 anos.

Caio Hornstein

“PROCURA-SE UM PÉ ESQUERDO.” Este foi o anúncio que me chamou a atenção quando lia os classificados um tempo atrás. Comentei por alto com Preta, que varria a sala.

– Veja, Preta. Era só o que faltava. Algum infeliz conseguiu perder o pé.

 Para minha surpresa, ela respondeu:

– Eu sei, foi seu Tonho. Passou aqui outro dia perguntando se eu tinha visto um pé assim e assado. Coisa de maluco.

Por um instante não soube de quem se tratava. Depois fiquei desesperado. “O Tonho não, qualquer um menos o Tonho”, pensei. Não era para menos. Afinal, no dia seguinte seria a final da Copa do Bairro e o Tonhão era o ponta-direita do meu time. O problema precisava ser solucionado com urgência. Fui à casa dele.

– Você é um estúpido – constatei ao vê-lo sem o pé.

– Não enche! Vamos, me ajude a achar o pé. Amanhã é…

– A final, eu sei. Como é esse pé?

– É o esquerdo.

– Isso eu sei, vi no jornal. Mas como lhe parece?

– Bonito. Está bronzeadinho porque eu passei o fim de semana em Santos.

– Estou falando sério. Pense, homem!

– Está bem. Tem cinco dedos, em ordem crescente de tamanho, do mindinho para o dedão.

– Isso não ajuda. Qual o tamanho?

– Costumava calçar quarenta e dois.

– E de altura?

– De altura? É mais ou menos assim – faz uma medida com as mãos – vai do chão até o tornozelo.

– Peludo?

– Acho que tem um pelo solitário no peito. E meia dúzia na chureula.

– Chu o que?

– Chureula. A parte de cima do dedão.

– Não importa! Isso já é alguma coisa, mas ainda está muito genérico. Tem alguma marca de nascença?

– Uma cicatriz perto do calcanhar, mas é quase imperceptível. – Procura fundo na memória. –Ah! Eu tive um olho de peixe um tempo atrás, pode ser que ainda tenha marcas.

– Nojento, mas pode ser útil.

Tonho começa a ficar desesperado:

– Meu deus, a final! Como vamos ganhar dos Desquitados sem a minha canhota? Você sabe que a minha direita não serve nem para subir no ônibus.

Realmente, não havia jeito de jogar sem ele. O Desquitados era forte, mas iam jogar a final sem o lateral-esquerdo, que estava suspenso. O Tonhão jogava ali, era o caminho da vitória.

– Calma que nós vamos achar esse pé. O que ele faz, por onde costuma andar?

– Bom, eu vejo sempre ele na companhia do pé direito.

– Este aqui? – perguntei olhando para o pé que lhe restava. Sem esperanças de que aquele pé pudesse ser útil no jogo de amanhã.

– Exato. É quase igual ao outro, exceto por esse joanete.

– Espere um pouco. Você não tinha uma fitinha do Senhor do Bonfim amarrada nesse pé, que eu te trouxe da Bahia?

– Tinha sim, mas era no esquerdo. Aliás, está aqui – tira o adereço do bolso –, mas que me adianta a fita se o pé eu não acho? E está cortada ainda.

– Você não percebe, Tonho? Se a fita está aqui, cortada, e o pé não, é porque você não o perdeu. Ele foi roubado!

– Não é possível. Como me roubariam o pé sem que eu percebesse?

– E por acaso não foi esses dias que você chegou bêbado cambaleando em casa?

– É isso! Foi no dia que eu encontrei o Barriga, capitão do Desquitados. Larápio! Quis me tirar do jogo.

– Safados. Mas agora não adianta reclamar, vamos dar um jeito nesse pé.

Já sabendo quais mãos estavam sobre o pé, restava pensar em como solucionar o problema da canhota de Tonhão. E até hoje me orgulho da decisão que tomei naquela tarde de sábado.

Quem olhar no jornaleco do bairro vai ver que o Desquitados perdeu aquela final por um a zero com gol de Tonhão. Um chute indefensável, com a bola fazendo uma das maiores curvas que o mundo já viu. A “bola curva de Tonhão” apareceu até no Fantástico, com uns cientistas tentando desvendar o segredo do petardo. Não conseguiram porque não foram ao jogo naquele domingo. Quem foi, jura que viu Tonhão jogando com dois pés direitos.

Felipe Blumen

Justiniano escolheu o time para o qual iria torcer aos quatro anos de idade. Optou pelo então campeão do título que duraria cem anos, o  quarto centenário da cidade de São Paulo.

O que Justiniano não sabia era que os 23 anos seguintes à decisão infantil marcariam sua vida para sempre. Nesse período o Sport Club Corinthians Paulista pasaria pelo maior jejum de títulos de sua história  e – consequentemente, talvez – uma doença instalaria-se em seu jovem coração.

Mesmo muito depois da equipe voltar a levantar o caneco, os anos de sofrimento na torcida enfraqueceram demais o já debilitado órgão muscular oco. A solução era única: o transplante.

Após anos na fila de espera, vem a ligação de Dr. Orfeu, seu médico há mais de duas décadas.

– Temos um novo, seu Justiniano, mas eu preciso avisar uma coisa. Conhecendo o senhor como eu conheço, preciso quebrar o protocolo e dizer que o falecido era palmeirense.

– Um coração de porco? Jamais! Passe-o adiante.

Apesar do ímpeto, foi a decisão mais difícil da vida de Justiniano. Temiar ter desperdiçado a única chance. Optara viver corintiano a viver com a dúvida.

Três meses depois vem a nova chamada. Dessa vez Dr. Orfeu mantém o sigilo.

– Ora, doutor, me falou da primeira me fala da segunda. De quem era? – ouve a resposta – De mulher? De mulher… De mulher! Está bem doutor, vamos à mesa.

Um ano depois do transplante de sucesso Dr. Orfeu encontra a esposa de Justiniano e pergunta como vai com o novo coração.

-Ah, uma maravilha doutor. O Justiniano está tão carinhoso e atencioso comigo, começou a me acompanhar aos lugares que quero ir e se preocupa mais com a dieta e com a saúde agora. Acredita até que topou fazer comigo as aulas de dança que eu sempre sonhei? Ele está um amor.

Dr. Orfeu dormiu naquela noite, e todas as outras até falecer, pensando se contar a verdade a Justiniano foi a decisão correta. De qualquer modo, nunca mais fez um transplante.

Felipe Blumen

No ano da primeira Copa do Mundo a ser realizada no continente africano, quando todos apostavam nos sucessos das promissoras seleções Costa do Marfim, Gana ou até mesmo a anfitriã África do Sul, nada de bom aconteceu para o futebol africano. Didier Drogba e Samuel Eto’o, por exemplo, brilharam em seus clubes, mas deixaram (e muito) a desejar no mundial.

Meses se passaram e o mundo da bola curou-se da febre da África, voltando os africanos para o lugar que sempre ocuparam no futebol, nenhum. Até agora.

Grata surpresa para todos que acompanham o Mundial de Clubes da FIFA, o time congolês chamado Mazembe roubou a cena ao desbancar o favorito Pachuca do México e o dito “favoritíssimo” Inter de Porto Alegre.

Comemorações africanas: surpeendendo desde 1982

A surpresa, porém, foi apenas para os que não tiraram o salto alto o olho do próprio umbigo. Como toda equipe africana da história do futebol, o Mazembe aposta na velocidade, na força e na determinação de seus jogadores, sem deixar, no entanto, de sofrer com a displicência e a falta de fundamentos também características do ludopédio do continente. Havia chances reais de ganharem.

É claro que a imprensa tupiniquim rapidamente tratou a partida como a “derrota do favorito”, “o maior vexame da história gaúcha”. Ora, todos os méritos ao Mazembe, com seus craques de nomes impronunciáveis e cabelos descoloridos, com seu goleiro que pula com os glúteos, com seus torcedores a caráter. Jogou para ganhar e ganhou. Mantras de “maior posse de bola” e de “gols perdidos” serão entoados, mas fazendo minhas as palavras de um sábio: “justiça no futebol é bola na casinha.”

O glorioso Mazembe já conquistou o mundo, pessoas assitirão à final sem se importar com o resultado, garotos repetirão a dança de Kidiaba nas peladas de rua, vuvuzelas sairão do armário, camisetas South Africa 2010 voltarão a ser usadas (afinal, têm de servir para algo), Shakira voltará a ser ouvida por todos os cantos.

Isso tudo, claro, por umas duas semanas, quando voltaremos a esquecer o bravo time africano, ocupando-nos com problemas maiores como as contratações da nossas equipes, os gastos de natal e o lugar ideal para assitir ao show da virada.

Que o Mazembe aproveite o momento de glória e a recaída da febre que assolou o globo em junho, que façam um bom jogo contra seu próximo adversáro, provavelmente outro “favoritaço”. Essa é a graça do futebol, que muitas vezes mais se repitam os gritos desconsolados de gol de Galvão Bueno.

Libertadores e mundial, Celso Roth?

 

Felipe Blumen

Pode parecer oportunista criticar o São Paulo após duas derrotas seguidas no Campeonato Brasileiro, no entanto, o post que segue é muito mais uma análise do que fez a equipe do Morumbi chegar a situação em que se encontra do que uma malhação dos atuais técnico e elenco.

O termo “moderno” no futebol brasileiro veio à tona em 2005 após o título mundial tricolor; a diretoria da época (mesma de hoje), tendo como porta-vozes Marco Aurélio Cunha, Leco e o presidente Juvenal Juvêncio passou a vender a imagem de um clube diferenciado devido sua estrutura e gestão. A “ditadura da estrutura” teve na mídia seu principal apoio; parte da imprensa ainda julga o São Paulo um clube favorito a títulos simplesmente por seu CT, pelo Reffis e porque continuam acreditando nos 3 dirigentes supracitados. Todavia, o campeonato do ano passado ajudou a desmistificar tal situação, afinal, o Flamengo era (ainda é) a clara antítese do São Paulo quanto a estrutura, planejamento etc.

Pior do que parte da imprensa ainda acreditar que o tricampeão brasileiro possui uma organização sui generis no Brasil é o próprio clube fazê-lo. Muricy foi demitido porque não conseguia ganhar a Libertadores e por ser constatado que havia um desgaste entre técnico e elenco; Ricardo Gomes, que assumiu abalizado por falar francês e se vestir bem, também não conseguiu vencer o torneio continental e foi mandado embora após começar mal no Brasileirão; veio então o glorioso Sérgio Baresi, baluarte da utilização dos jovens de Cotia. A demissão de Muricy Ramalho até faz certo sentido já que o técnico estava há 3 anos no clube, a contratação de Ricardo Gomes, porém, é incompreensível e este pode ser considerado o momento exato em que a soberba tomou conta das salas diretivas do Morumbi: o técnico era uma estranha aposta para um equipe que vinha de três títulos brasileiros seguidos, já que nunca passou de campanhas razoáveis pelos clubes que dirigiu. A explicação vai além de seus atributos já citados, para a diretoria sãopaulina pouco importava quem seria o técnico, afinal, este dirigiria um clube moderno, diferenciado e bem estruturado, ou seja, bastava escalar o time. Um pouco antes disso já se iniciara uma leva de contratações obscuras: Fábio Santos, Carlos Alberto e Adriano chegaram com famas de encrenqueiros que seriam “curados” pela übber-estrutura tricolor. Não deu certo e, ainda por cima, piorou. Os três jogadores citados tinham algum talento técnico pelo menos (dois deles, na verdade), mas no início desta temporada o São Paulo passou a achar que também poderia tornar jogadores medíocres em brilhantes: André Luís, Xandão, Léo Lima, Fernandinho, Marcelinho Paraíba etc.

Pois bem, a briga de Neymar com Dorival Júnior foi o maior presente que o clube poderia ter recebido, o melhor técnico do ano no Brasil estava disponível. Mas não. As regras da modernidade postulam que “não demitirás um treinador, mesmo que sua mediocridade fique comprovada, durante um torneio”. E Dorival foi para o Atlético Mineiro. E provavelmente Baresi não vai aguentar mais duas derrotas. E o Marco Aurélio Cunha vai dar alguma declaração engraçadinha fazendo troça do Corinthians. Mas a torcida merece, afinal, ainda aplaudem o Dagoberto.

Pitacos:

– Logo após seu título mundial, o Inter entrou na mesma moda da modernidade. Ao ver que perderia mais uma Libertadores, trocou de técnico nas quartas de final e foi campeão.

– Cansei dos “jornalistas de guia”, aqueles que leem um guia do brasileirão um dia antes da partida e analisam o comportamento tático das equipes baseado nas posições dos jogadores e não em suas funções em campo. Não aguento mais ouvir que o Palmeiras joga com 4 volantes, é só assistir ao cotejo para perceber o 4-2-3-1 com Marcos Assunção e Edinho de volantes, Tinga pela direita, Márcio Araújo aberto pela esquerda e Valdívia no meio.

Rodrigo Giordano

Jogando para perder

25/08/2010

O leitor com certeza já ouviu a expressão “futebol de resultado”. Muito utilizada para caracterizar o estilo de jogo da seleção de Dunga na última Copa e de todas as outras equipes que jogam recuadas, sem se arriscar demasiadamente, na espera por um contrataque. Pois bem, a dita cuja muito me intriga, afinal, qual o time que não entra em campo pensando apenas na vitória?

Após o título mundial espanhol, os títulos do Santos e o amistoso de estreia de Mano Menezes na seleção brasileira, grande parte da mídia tirou da cartola a expressão supracitada pra bater em todos os técnicos e times que não jogam um futebol ofensivo, de muitos passes e dribles, que no Brasil também atende pelo nome de “futebol muleque, alegre, isquindolelê”. Utilizemos os “meninos da Vila” como exemplo, então; 99,9% da mídia vangloriou Dorival Júnior por trazer o futebol ofensivo de volta e apontou o dedo indicador para os demais treinadores, como se todos tivessem um Neymar, um Ganso e um Robinho em seus times.

Mas voltemos a expressão que fez com que essas mal “tecladas” linhas emergissem à blogosfera. A sentença é típica de um jornalismo preguiçoso, que até tem consciência que está dizendo algo incoerente, porém, como já está tão estabelecido e o público sabe o que quer dizer, não há preocupação em corrigi-la. Todo futebol é de resultado, seja o bonito ou o feio, seja o ofensivo ou o defensivo. Penso em dois exemplos interessantes: se Dorival Júnior tivesse no Santos os defensores Thiago Silva, John Terry e Lúcio, e os atacantes Afonso Alves, Josiel e Gioino, você acha que ele deveria manter a mesma forma com que o Santos joga? É claro que não. Dorival arma seu time dessa maneira por achar que esta é a melhor forma de vencer. E se a seleção de Mano Menezes tomasse de 3 a 0 da Argentina na Copa América e ele saísse dizendo que “pelo menos jogamos bonito”, seria o bastante para você?

É claro que casos como a seleção de Dunga são realmente incompreensíveis, já que o treinador tinha opções muito melhores das que levou para a África do Sul, mas não dá para querer que o Ceará jogue como a Espanha, nem acusar o Atlético-GO de entrar para arrancar um empate. Queriam o que? Que jogasse ofensivamente mesmo tomando de 5 a 0?

Sim, é chato assistir um jogo em que um dos times não se arrisca no ataque e só se utiliza dos erros de seu adversário, no entanto, o papel do jornalista é tentar entender porque tal equipe joga dessa maneira, e não o de dizer que deveria jogar de tal jeito ou de outro. Isso para lembrar que “futebol de resultado” é uma expressão burra, mas se for utilizá-la coloque entre aspas.

Rodrigo Giordano