Depois de conquistar a Euro 2008 e a Copa do Mundo de 2010, a Seleção Espanhola dava mostras de que estava bem à frente das demais equipes nacionais e que seria favorita tanto na Euro 2012 quanto na Copa do Mundo de 2014. No entanto, as atuações apagadas do time campeão do mundo contra Argentina e Portugal tiveram como consequência duas surpreendentes goleadas. Para piorar, o artilheiro David Villa sofreu uma lesão grave no final do ano passado, que praticamente tirou suas chances de disputar a Euro deste ano. Soma-se a isso a fase terrível do centroavante Fernando Torres, que, embora já não fosse titular absoluto na Copa do Mundo, era tido como um dos melhores camisas nove do mundo até se transferir para o Chelsea.

O cenário acima é um prato cheio para quem deseja apontar a Espanha como um vento passageiro, que está prestes a sucumbir diante da renovada Alemanha e da Holanda de Robben, Sneijder e Van Persie. O vento da “Fúria”, aliás, já não soprava tão forte na Copa do Mundo quanto o fez na Euro 2008, afinal as quatro vitórias na fase mata-mata foram conquistadas com o placar mínimo. Porém, ainda há bons motivos para acreditar que a Espanha segue sendo a melhor equipe nacional do mundo:

Fabregas e Silva se firmam como grandes astros

Cesc Fabregas e David Silva são jogadores de grande talento, mas ambos levaram algum tempo para amadurecer totalmente e se consagrar por grandes equipes. Fabregas já era rei no Arsenal, mas as deficiências do time ofuscavam seu ótimo futebol. David Silva claramente se mostrava “grande demais” para as pretensões do Valencia. Pois aconteceu o óbvio. Fabregas foi para o Barcelona e logo se tornou figura indispensável nos 11 titulares de Pep Guardiola, passando a atuar até como centroavante em alguns momentos do jogo, o que ajudou a aflorar seu lado artilheiro, comprovado com os 15 gols em 39 jogos. Já David Silva rumou para a Inglaterra e se juntou ao bilionário time do Manchester City.

Diante de tantas estrelas, muitos pensavam que Silva teria dificuldades para se tornar titular absoluto, mas ele não apenas se tornou fundamental, como já foi apontado várias vezes como o melhor jogador do campeonato inglês na atual temporada.

Em resumo, Fabregas e Silva estão entre os 10 melhores jogadores do mundo na temporada 2011-12, o que é uma excelente notícia para o técnico Vicente Del Bosque, que vê dois reservas da Copa do Mundo de 2010 serem escolhas quase óbvias para escalar a Espanha para a Euro 2012. Melhor do que isso, Del Bosque ganha opções táticas para fugir do batido 4-2-3-1 (ou do 4-4-2 ortodoxo que Luis Aragonés utilizou na Euro 2008).

Imitando o Barcelona

Além de representar um acréscimo técnico considerável, a presença de Fabregas no time titular da Espanha pode ser o ponto de partida para uma nova fase na “Fúria”. Guardiola fez o favor de mostrar a Del Bosque como Fabregas pode ser igualmente brilhante atuando em posições variadas, desde terceiro homem do meio-campo, até ponta ou centroavante. Essa opção surge em um momento providencial para a seleção nacional, já que Villa ainda não tem perspectiva de volta (e não se sabe se ele poderá atuar nas mesmas condições de antes) e Fernando Torres apenas agora começa a dar pequenos sinais de recuperação. Llorente seria uma opção, mas é outro caso de jogador que precisaria ir para um time de maior porte para desenvolver todo seu potencial. Há ainda Negredo e Soldado, mas ambos não têm o nível de excelência a que o torcedor espanhol se acostumou nos últimos quatro anos.

Com isso, Del Bosque tem a chance de “imitar” o Barcelona, que atualmente deixa qualquer seleção nacional no chinelo. Jogar sem centroavante fixo se torna uma opção excelente para a Espanha, que pode desenvolver um futebol muito envolvente tendo um meio-campo formado por Busquets, Xabi Alonso, Xavi, Iniesta, Fabregas e Silva. É basicamente um Barcelona sem Messi e Daniel Alves. É evidente que não tem cabimento comparar Messi e David Silva, mas o meia espanhol é um excepcional jogador e, se algum time hoje pode ter a “honra” de imitar o Barcelona, este time é a Espanha (mesmo porque conta com seis jogadores do time catalão, sendo quatro deles meio-campistas).

Claro que copiar o sistema tático do Barcelona não é tão simples e passa inclusive por um capricho maior de Casillas com a bola nos pés (nisso Valdés sem dúvida é superior ao goleiro do Real Madrid, só nisso). A saída pela direita com Sergio Ramos não conta com o talento de Daniel Alves, mas há a alternativa de sair pelo outro lado com o jovem Jordi Alba, revelação do Valencia que rapidamente se tornou titular da posição mais carente do time espanhol, ocupada anteriormente por Capdevilla e Arbeloa, dois laterais esforçados, mas limitados.

Se a bola chegar redonda ao meio-campo, não tem erro. Os quatro jogadores do Barcelona farão o mesmo trabalho de posse de bola que fazem pela equipe catalã e ainda terão a ajuda de Xabi Alonso e David Silva. Sem dúvida pode faltar a esse time um goleador, pois Fabregas não pode ser o único responsável por balançar as redes. David Silva e Iniesta tem boa finalização, mas não são artilheiros. O mais próximo que esse time chegaria do Barcelona seria um 4-3-3, com Iniesta aberto de um lado e Silva aberto de outro, com Fabregas colocado como falso centroavante (função de Messi no Barcelona).

Se esse “Barcelona sem Messi” não der certo, a solução pode estar na volta de David Villa ou de Fernando Torres, mas aí a grande dúvida é quem seria sacado desse time estelar. Xavi, Iniesta e Fabregas me parecem intocáveis, principalmente pelo que vêm fazendo no Barcelona. Pode sobrar para David Silva, mas Del Bosque poderia ousar e sacrificar um dos volantes. Nesse caso Xabi Alonso teria mais chance de perder sua posição, pois Busquets faz melhor a função de primeiro volante.

Kim Paiva

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Toni Kroos irá conseguir levar o Leverkusen ao título inédito?

Assim como fiz aqui, decidi assistir a 3 partidas seguidas do Bayer Leverkusen pela Bundesliga 09/10. Ao contrário do time do Flamengo analisado nos tempos em que o Prof. Cuca estava por aquelas bandas, o esquema tático do Leverkusen é muito mais simples de ser compreendido: um 4-4-2 clássico, com duas linhas de 4 e com os dois meias mais criativos da equipe caindo pelas pontas. No dia 21/02, o Bayer foi até Bremem enfrentar o Werder e Jupp Heynckes levou a seguinte equipe a campo: Adler; Schwaab, Friedrich, Sarpei e Castro; Vidal, Reinartz, Barnetta e Kroos; Derdiyok e Kiebling. Não há muita variação na forma da equipe jogar, Vidal e Reinartz são volantes de pegada que não possuem uma boa saída de jogo, eles roubam a bola e procuram Barnetta e Kroos, sendo este o jogador mais técnico da equipe e cujas arrancadas para o meio sempre acabam abrindo espaço para a passagem dos laterais; Derdiyok é um atacante suiço muito forte e com boa técnica que joga pelos lados do campo, ajudando a preparar jogadas para o atual artilheiro do campeonato alemão, o jovem Stephan Kiebling. O Leverkusen chegou à rodada 23 invicto na Liga e começou jogando de forma a manter tal invencibilidade, Derdiyok abriu o placar aos 29 minutos do primeiro tempo; pouco tempo depois, Pizarro empatou. No segundo tempo, Toni Kroos trouxe a bola pelo meio e fez um golaço que colocou o time visitante em vantagem, que durou até o último minuto do cotejo quando Mertesacker cabeceou a bola para as redes adversárias, fazendo  2 a 2 o resultado final. Talvez aí tenha começado o inferno astral do Leverkusen.

Ostentando a liderança do campeonato, o invicto Bayer Leverkusen iria jogar em seu estádio (Bay Arena) contra um dos últimos colocados da Bundelisga, o Colônia. Na equipe que foi a campo apenas uma mudança em relação ao jogo anterior, a volta do experiente zagueiro Hyypiä no lugar de do gânes Sarpei. O modorrento 0 a 0 da primeira etapa faz com que Heynckes mexesse na estrutura da equipe: Renato Augusto entrou no lugar de Schwaab, Kadlec substituiu Gonzalo Castro e, posteriormente, Barnetta deu lugar a Bender. o chileno Vidal foi deslocado para a lateral-direita e Kroos passou a jogar mais centralizando no meio de campo, apenas com Reinartz como volante de contenção. Renato Augusto, assim como fez quando entrou contra Werder, mudou a cara da equipe e com bons lances fez o Leverkusen chegar mais perto do gol, porém, o destaque da equipe Toni Kroos sumiu em sua nova posição, o que fez com que o treinador alemão tirasse o suiço Barnetta para entrada de Bender, devolvendo a revelação alemã ao lado esquerdo do campo. Não adiantou. Derdiyok e Kiebling estavam em uma péssima jornada e o Leverkusen frustrou sua torcida não conseguindo tirar o zero do placar. Para piorar, o Bayern de Munique venceu o Hamburgo por 1 a 0 e assumiu a liderança do campeonato.

Será a volta de Helmes a solução para o Bayer?

O Leverkusen foi fundado em 1904 mas nunca venceu uma Bundelisga sequer, foi vice-campeão por 4 vezes, porém. Neste ano montou uma equipe consistente, mesclando juventude e experiência, o que pode ser visto na zaga formada pelos trintões Hyypiä e Fridrich e nos jogadores de ataque como Kroos (20 anos), Renato Augusto (22) e Derdyiok (21). Isso somado aos bons momentos de Rene Adler (que dever ser o goleiro titular da Alemanha na Copa), de Tranquilo Barnetta e do artilheiro Kiebling fez com que a equipe se mantivesse invicta por 24 rodadas e tenha se tornado a grande favorita à conquista da do Alemãozão 2009/10. Agora, junte este contexto de expectativa com os dois últimos decepcionantes empates aqui descritos e você tem a enorme pressão formada por imprensa e torcida para o confronto diante do Nürnberg, até então penúltimo colocado da Liga. Heynckes tratou de fazer mudanças na equipe, esperando uma nova atitude do ex-líder. A escalação foi: Adler; Kadlec, Hyypiä, Friedrich e Castro; Vidal, Reinartz, Renato Augusto e Kroos; Derdyiok e Kiebling. Como sempre, 4-4-2 clássico. Com o Nürnberg fazendo uma marcação muito forte e querendo se aproveitar do nervosismo da equipe da Renânia do Norte, o Leverkusen não conseguia criar nada; para piorar, sua eficiente defesa falhou duas vezes, permitindo a vantagem da equipe da casa. Com 2 a 0 na cabeça, o Leverkusen voltou para o segundo tempo sem alterações, porém com a intenção de no mínimo empatar e encostar no Bayern de Munique. No entanto, logo no começo da etapa final, a equipe tomou um golpe que se mostraria derradeiro, 3 a 0 Nürnberg. Foi só aí que o professor Heynckes decidiu mexer na equipe, o sonolento Derdiyok deu lugar a Patrick Helmes (originalmente titular da equipe, voltando de lesão) e Reinartz foi substituído por Barnetta. As mudanças feitas somadas ao recuo do time da casa fizeram com que só o Leverkusen jogasse e Helmes e Kiebling devolveram a esperança aos torcedores que unca viram seu time campeão alemão. Mas parou por aí e a imagem de Kiebling consolando Derdyiok ao final do jogo é a síntese da queda de rendimento do Leverkusen, jogadores jovens que não estão conseguindo lidar com tão grande expectativa.

Bom, se você acha que já viu esse filme antes, adicionarei alguns comentários que talvez confirmem sua desconfiança. O melhor jogador da equipe não tem conseguido render nas partidas importantes, o centroavante do time, antes esperança, agora é tratado como decepção e a zaga, anteriormente elogiada por sua consistência, falha em 3 gols contra o penúltimo colocado. Se isso não bastou para você fazer as devidas ligações, basta saber que agora terceiro colocado, o Bayer Leverkusen pode acabar perdendo o título para o time que nos últimos anos ganhou o campeonato várias vezes seguidas ou para o time de maior torcida do País…

Para ver se esse filme alemão possui o mesmo final da versão brasileira do ano passado, fique atento a essas datas envolvendo os candidatos ao título deste ano, Bayern de Munique (53 pontos), Schalke 04 (51 pontos) e Bayer Leverkusen (50 pontos):

dia 27/03 – Rodada 28: Bayer Leverkusen x Schalke 04 – Bay Arena

dia 03/04 – Rodada 29: Schalke 04 x Bayern de Munique – Veltins Arena

dia 10/04 – Rodada 30: Bayer Leverkusen x Bayern de Munique – Bay Arena

Rodrigo Giordano

Assisti aos últimos três jogos do Flamengo a fim de ver como o time se comportaria com a saída de Ibson para, posteriormente, colocar aqui minhas impressões sobre o esquema tático da equipe rubronegra. O que parecia um exercício simples acabou se tornando um denso material que ajuda a explicar a razão pela qual o técnico Cuca acabou fracassando no comando do time carioca.

O esquema do Flamengo era o 3-5-2, mas bem diferente do utilizado pela maioria das equipes brasileiras; Cuca é um treinador adepto da intensa variação de funções por parte de cada jogador. Pois contra o Palmeiras o time da gávea entrou em campo assim:

Bruno; Welinton, Ronaldo Angelim e Fabrício; Leonardo Moura,

Willians, o carregador de piano do Fla

Willians, o carregador de piano do Fla

Willians, Kléberson, Zé Roberto e Everton; Émerson e Adriano.

Apenas os três zagueiros e Adriano tinham posição fixa, o resto do time mudava constantemente de posição: Willians começa como cabeça de área, função que exerce melhor já que desarma muito bem, mas aparece também na lateral-direita e fechando uma linha de quatro com os zagueiros; Everton não é ala, é meia esquerda mesmo e deixa muito espaço em suas costas, que não são bem cobertas por Kléberson, dando ainda mais trabalho à Willians; Zé Roberto e Émerson trocavam de posição na armação das jogadas, porém o primeiro sempre se destacou jogando mais pelas pontas; Léo Moura começa como ala direito mas cai toda hora para o meio campo, seja para armar jogadas, seja para fazer as vezes de volante, o que funciona mal, afinal, nunca foi um grande marcador e suas entradas em diagonal já não surpreendem mais ninguém.

Contra o Botafogo a única mudança foi a entrada de Airton no lugar de Willians que estava suspenso. O time fez uma partida ruim e só chegou ao empate graças ao atacante Émerson, cujas jogadas individuais caracterizam os momentos de maior perigo que o Flamengo leva ao adversário. No entanto, contra o Barueri, Cuca decidiu fazer mudanças substanciais e este foi o time que entrou em campo:

Bruno; Airton, Ronaldo Angelim e Marlon; Leonardo Moura, Willians, Kléberson, Fierro e Jorbison; Émerson e Adriano.

O garoto Jorbison entrou bem e deu mais consistência na ala esquerda, mas Fierro, assim como Zé Roberto, é um jogador para ser utilizado pelos lados do campo e não como armador, coisa que nunca foi no Colo Colo nem na seleção chilena.

A conclusão mais importante desses três jogos, porém, está nos jogadores de quem se mais espera na atual equipe do Flamengo: Adriano é um poste, não volta para buscar bola, não arranca e pouco finaliza, só consegue aparecer em jogadas de bola parada; Kléberson está perdido sem Ibson, com o companheiro dividia a armação das jogadas e a marcação no meio de campo, pois com Fierro e Zé Roberto sendo incompetentes no setor ofensivo, Kléberson fica sobrecarregado. E aí se percebe o pecado de Cuca; o treinador parece ter esquecido que a melhor tática é aquela que respeita as principais características de cada jogador. Pois o ex-técnico flamenguista virou escravo do 3-5-2 e da intensa variação de posições que funcionou em seu Botafogo de 2007; o problema é que no time de General Severiano havia jogadores adaptados a exercer esse esquema. No Flamengo, Léo Moura e Juan não Cucamarcam ninguém, Adriano não se movimenta, e o mais importante, sem Ibson o time perdeu o homem que parava a bola no meio campo. O elenco do Flamengo é nada mais que razoável, porém se bem montado pode brigar por uma vaga na Libertadores, o que faria muito gente apontar Cuca (foto) como um dos grandes responsáveis pelo feito; mas as pressões internas e externas, a dificuldade de lidar com os privilégios de Adriano e o amadorismo da direção do clube, ajudaram-no a cavar sua própria cova.

Rodrigo Giordano