O futebol aconteceu

26/04/2012

“Hoje, o futebol perdeu”. Frase muitíssimo ouvida no dia 25/04/2012, referência à derrota do Barcelona para o Chelsea na semifinal da Champions.

Não, o futebol não perdeu nada. Nem ganhou. Simplesmente aconteceu. O Chelsea não é um time retranqueiro, não vive de chutões nem de gols de bola parada; possui ótimos jogadores, alguns técnicos e habilidosos. Enfim, é melhor do que qualquer um dos 20 times que disputam a 1ª divisão do Campeonato Brasileiro e do que o futuro campeão da Libertadores.

Teve a grandeza de reconhecer sua pequenez diante do melhor time do mundo. Elaborou uma estratégia para dois jogos e a executou brilhantemente; marcou o Barcelona como ninguém com apenas 10 jogadores, sem ser violento (e quando foi, o juiz puniu).

No entanto, há quem ache que Di Matteo devesse entrar com 3 atacantes, ir pra cima, perder de 5 e achar graça.

Deu gosto de ver a raça dos jogadores do time inglês: Lampard não perdeu uma dividida, Ramires correu o campo inteiro, Drogba jogou até de lateral-esquerdo. E o gol do brasileiro foi mais bonito do que qualquer jogada armada por Messi, Xavi, Iniesta e cia.

O Barça continua sendo o melhor time do mundo e essa derrota diz muito sobre o time: a equipe catalã possui um estilo de jogo, que não vai mudar por uma eliminação; todos os times do mundo continuarão tendo que fazer os jogos de suas vidas para vencer o Barcelona. E isso é ótimo pro jogo, o esporte vive disso.

O futebol não perdeu nada ontem. Talvez o de playstation, sim. O de verdade não.

Rodrigo Giordano

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Várias vitórias do Boca Juniors e do River Plate sobre times brasileiros no final dos anos 90 e começo dos anos 00 fizeram com que nascesse uma das maiores falácias sobre o futebol argentino atual, a de que apenas esses dois times prestam. A imprensa esportiva brasileira, muito mal informada, passou a desdenhar os torneios continentais em que ambos não participavam, dizendo que as equipes brasileiras que disputavam tais competições teriam um caminho fácil pela frente. Nem mesmo as crises pelas quais Boca e River vêm enfrentando desde a metade da década atenuou tal situação; foi preciso o Estudiantes vencer o Cruzeiro em pleno Mineirão, na final da Libertadores de 2009, para as equipes argentinas voltarem a ser temidas. Mas o Estudiantes tinha Verón, e a mídia brasileira tratou de rotular o time de La Plata como um time razoável com um jogador brilhante, ignorando as ótimas atuações de Andújar, Angelleri e Boselli.

O início da Taça Libertadores de 2011 e o torneio sul-americano sub-20 possuem ótimos exemplos para mostrarmos como a suposta superioridade do atual futebol brasileiro sobre o atual futebol argentino é uma mentira. Fluminense x Argentinos Juniors: o atual campeão brasileiro era dado como favorito absoluto pela mídia tupiniquim, afinal, jogava em casa e o adversário argentino não vestia azul e amarelo, nem branco e vermelho, tampouco tinha um craque conhecido. Talvez os “especialistas” não soubessem que o Argentino Juniors havia vencido o Torneiro Clausura 2009-10, ou seja, também havia sido campeão nacional no mesmo ano que o tricolor carioca (apesar do Clausura terminar em junho). O argumento que tenta pormenorizar a “evidente” superioridade de nosso futebol sobre o deles é ainda pior, pois vem carregado de preconceito: “time argentino sempre complica, muita catimba, duas linhas de quatro, entradas mais fortes”, ou seja, um time argentino nunca vence um brasileiro porque é simplesmente melhor técnica ou taticamente. Pois bem, o Argentino Juniors iniciou a partida no Engenhão num 3-4-3, poucas foram as jogadas mais ríspidas e a equipe de Pedro Troglio não se limitou aos contra-ataques apenas, pelo contrário, por várias vezes esteve melhor na partida do que o Flu, num jogo marcado pelo equilíbrio; o meio-campista Mercier e o veloz Niell jogariam fácil numa equipe que estreia na Libertadores com Diguinho e Williams no time titular, Salcedo é um centroavante que anda em falta no futebol brasileiro e Oberman poderia ser mais um desses camisas 10 argentinos que vêm se multiplicando em nossos campos. Em Brasil x Argentina, pelo torneio sub-20, o time brasileiro era evidentemente mais forte do que a seleção albiceleste, porém, os garotos brasileiros, tomados pelo preconceito que já atingiu o senso comum, acharam que tinham que mostrar aos argentinos que também sabiam bater. Resultado: Juan expulso logo no começo do jogo por dar um soco no atacante adversário dentro da área, 2 a 1 Argentina.

Niell, 1,62m, deixou dois de cabeça no Flu...

É claro que o campeonato brasileiro é mais forte do que o campeonato argentino, mas convenhamos, o Brasil vive uma época muito mais próspera economicamente e seus clubes possuem mais capacidade de investimento; no entanto, se isso constitui uma superioridade razoável, não é tanto quanto que se propagandeia na mídia nacional, e isso fica explícito por uma simples conta de proporcionalidade: Brasil e Argentina possuem um número próximo de jogadores de sucesso nas principais ligas da Europa, mas nós temos uma população de 180 milhões de habitantes, enquanto eles têm 40 milhões. O que torna ainda mais contraditória a visão de que nós temos times técnicos e eles equipes batalhadoras é a importação de meias armadores: Dário Conca e Walter Montillo foram os melhores jogadores do campeonato do ano passado, e ainda há D’Alessandro e Botinelli. Portanto, desinformação e preconceito, além de uma grande vontade de parte da mídia em exacerbar a rivalidade entre ambos os países, acabaram por formar uma visão comum no público, nas comissões técnicas e até nos jogadores, da falta de técnica dos jogadores argentinos que atuam no futebol local, sempre em contrariedade ao “futebol muleque-ziriguidum-chuteira rosa-moicano-pedalada-samba” do Brasil. Nem mesmo os altos graus de miopia que acometiam a visão de Nelson Rodrigues o impediriam de enxergar este novo fenômeno do futebol brasileiro: um vira-lata metido a cachorro de burguês.

Rodrigo Giordano

Jogando para perder

25/08/2010

O leitor com certeza já ouviu a expressão “futebol de resultado”. Muito utilizada para caracterizar o estilo de jogo da seleção de Dunga na última Copa e de todas as outras equipes que jogam recuadas, sem se arriscar demasiadamente, na espera por um contrataque. Pois bem, a dita cuja muito me intriga, afinal, qual o time que não entra em campo pensando apenas na vitória?

Após o título mundial espanhol, os títulos do Santos e o amistoso de estreia de Mano Menezes na seleção brasileira, grande parte da mídia tirou da cartola a expressão supracitada pra bater em todos os técnicos e times que não jogam um futebol ofensivo, de muitos passes e dribles, que no Brasil também atende pelo nome de “futebol muleque, alegre, isquindolelê”. Utilizemos os “meninos da Vila” como exemplo, então; 99,9% da mídia vangloriou Dorival Júnior por trazer o futebol ofensivo de volta e apontou o dedo indicador para os demais treinadores, como se todos tivessem um Neymar, um Ganso e um Robinho em seus times.

Mas voltemos a expressão que fez com que essas mal “tecladas” linhas emergissem à blogosfera. A sentença é típica de um jornalismo preguiçoso, que até tem consciência que está dizendo algo incoerente, porém, como já está tão estabelecido e o público sabe o que quer dizer, não há preocupação em corrigi-la. Todo futebol é de resultado, seja o bonito ou o feio, seja o ofensivo ou o defensivo. Penso em dois exemplos interessantes: se Dorival Júnior tivesse no Santos os defensores Thiago Silva, John Terry e Lúcio, e os atacantes Afonso Alves, Josiel e Gioino, você acha que ele deveria manter a mesma forma com que o Santos joga? É claro que não. Dorival arma seu time dessa maneira por achar que esta é a melhor forma de vencer. E se a seleção de Mano Menezes tomasse de 3 a 0 da Argentina na Copa América e ele saísse dizendo que “pelo menos jogamos bonito”, seria o bastante para você?

É claro que casos como a seleção de Dunga são realmente incompreensíveis, já que o treinador tinha opções muito melhores das que levou para a África do Sul, mas não dá para querer que o Ceará jogue como a Espanha, nem acusar o Atlético-GO de entrar para arrancar um empate. Queriam o que? Que jogasse ofensivamente mesmo tomando de 5 a 0?

Sim, é chato assistir um jogo em que um dos times não se arrisca no ataque e só se utiliza dos erros de seu adversário, no entanto, o papel do jornalista é tentar entender porque tal equipe joga dessa maneira, e não o de dizer que deveria jogar de tal jeito ou de outro. Isso para lembrar que “futebol de resultado” é uma expressão burra, mas se for utilizá-la coloque entre aspas.

Rodrigo Giordano

A negação da frase que serve como título para este post foi muito utilizada neste ano que vai se despedindo; jogadores, técnicos e especialistas não sabendo como explicar resultados improvavéis, apelavam para a dita cuja. Compreensível, já que o campeonato brasileiro de 2009 foi o campeonato do inexplicável. Foram muitos os que desistiram de encontrar razões (com bom senso, é claro, afinal, foram inúmeras as teorias da conspiração) para a queda do Palmeiras, a recuperação do Fluminense, a ascensão do Flamengo, entre outros. Sendo assim, “o futebol não é uma ciência exata” foi ouvido a cada zebra, talvez por considerarem que “o futebol é uma caixinha de surpresas” seria muito clichê.

Abaixo listo alguns “postulados do Brasileirão”, fatores que desde que o campeonato passou a ser em pontos corridos são considerados essenciais para o sucesso de uma equipe, que foram transformados pelo certame deste ano.

O planejamento, o projeto

Quando V(W)anderlei(y) Luxemburgo conquistou o primeiro campeonato brasileiro de pontos corridos com o Cruzeiro em 2003, não se cansou de repetir que o resultado viera graças ao projeto do time mineiro; ele fez o mesmo com o Santos campeão de 2004 e, até hoje, logo que assume um novo clube diz que aceitou a proposta baseada no projeto de tal equipe. Por muito tempo tido como o melhor técnico do Brasil pela maioria da imprensa, esta engoliu a história do atual treinador do Atlético-MG como um mandamento: “Só é campeão quem tem um planejamento e um projeto”. Mas o que seriam essas duas coisas? Aí encontramos mais uma variedade de lugares comuns regorgitados pela mídia esportiva tupiniquim: Estrutura (centro de treinamento adequado, centro de recuperação física de jogadores, psicólogos, diretores de futebol etc.), pré-temporada, manutenção de grande parte do elenco, e claro, também do técnico. Pois bem, o campeão Flamengo conseguiu trangredir todas essas afirmações; o clube possui um centro de treinamento precário, viveu intenso conflito político com a licença de seu presidente por motivos de saúde, fez inúmeras contratações ao longo do campeonato e mudou de treinador. Não obstante, o segundo e terceiro colocados, Inter e São Paulo, que se consideram os clubes mais ultra-mega-super modernos da face da Terra, também presenciaram mudanças de seus comandantes ao longo do certame. Ah, não poderíamos esquecer de ressaltar a campanha do rei do planejamento professor W(V)anderley(i) Luxemburgo, que depois de demitido do Palmeiras, passou o torneio inteiro prometendo levar o Santos à Libertadores e acabou num honroso 12º lugar. É o fim do planejamento como o conhecíamos.

Vencer os jogos em casa

“Fazer a lição de casa”, é isso que técnicos e jogadores não cansaram de repetir como indispensável para o sucesso de suas equipes. O Grêmio, então, foi o aluno perfeito: em 19 jogos, 14 vitórias e 5 empates. No entanto, não contava que fora de seus domínios tivesse uma campanha de rebaixado ao vencer apenas uma partida, empatar 5 e perder 13. E assim caiu mais um postulado do Brasileirão.

A regularidade

Os especialistas não têm dúvida, o campeonato de pontos corridos premia a regularidade. O caso é que esta edição do Brasileiro premiou a última regularidade; o Flamengo passou o campeonato inteiro no meio da tabela, após um série de 10 jogos sem derrota, a equipe carioca alcançou o grupo da frente mas só chegou à liderança na penúltima rodada. O Palmeiras foi a melhor equipe do campeoanto até a rodada 34, quando deixou a liderança após 20 jogos, ou seja, os maus resultados das últimas 10 partidas da equipe de Muricy Ramalho jogaram fora a regularidade que a equipe demonstrou nas outras 18. O inverso ocorreu com o Fluminense; portanto, não se trata tanto de ser regular ao longo do campeonato e sim ter uma boa sequência de vitórias no momento certo.

Com o que foi exposto acima, não pretendo desmerecer o campeoanto de pontos corridos nem a vitória flamenguista, mas apenas demonstrar que certos discursos devem ser mudados, pois as circunstâncias de determinado campeonato fazem com que seja decidido por diferentes razões. O campeonato de 2003 foi vencido pela equipe que tinha indiscutivelmente o melhor plantel da época, 6 anos depois não temos uma situação semelhante, portanto, é errôneo pensar que o que levou o Cruzeiro a ser campeão naquele ano é o mesmo que levou o Flamengo a ser campeão neste.

Terminado o campeonato, origina-se o momento de especulações e parte da imprensa não se cansa de criar suas verdades, a frase da moda agora é: “fulano tem tudo acertado com time X, só falta o time Y liberar”. SÓ?! As equipes também não mudam muito, é só dar uma olhada no noticiário e ver que o Corinthians continua achando que pode ganhar a Libertadores com grandes nomes, o São Paulo se considera tão bem estruturado que contrata jogadores fracos tecnicamente e mentalmente achando que pode consertá-los, o Inter insiste em posar de clube mais moderno do Brasil e contrata técnico estrangeiro, o Palmeiras diz que no ano que vem tudo vai ser diferente, o Grêmio faz força descomunal para manter um ídolo portenho. O futebol brasileiro tenta ser uma ciência exata.

Rodrigo Giordano

Pega! Pega!

20/07/2009

O futebol divertido, gozador e irreverente está perdido. Pois o que se viu nesse sábado no São Januário foi ridículo. O garoto do time da casa Philippe Coutinho, foi advertido pelo árbitro por estar pedalando para cima dos marcadores. “Fiz para preveni-lo de futuras pancadas”, bela justificativa.

O que seria desse coitado em outra época do futebol? Pois como dito por Mouzar Benedito em uma crônica: “Garrincha chamava os marcadores de ‘João’ e dava-lhes um baile, coisa que hoje seria considerada humilhação e justificaria aos adversários baixarem-lhe o sarrafo – com a complacência dos comentaristas esportivos: ‘Ah, mas ele provocou…’ ”.

E não precisamos ir tão longe. Renato Gaúcho, Romário, Edmundo, Vampeta, Valdívia, faziam a festa das torcidas (de seus times, claro) dentro e fora de campo. Viola, que comemorou um gol imitando um porco em um Corinthians x Palmeiras, hoje certamente tomaria um cartão amarelo.

As declarações provocantes em semanas de clássicos viraram combustível para pancadaria, de jogadores e de bandidos torcedores.

A onda do “politicamente correto” está tirando o brilho do futebol. Temos que provocar, zombar, driblar, pedalar, chapelar. Mas claro,”nunca deixando de respeitar o adversário”

Felipe Blumen

Ser lúdico ajuda

13/06/2009

Concordo plenamente com o que escreveu o amigo Caio aqui embaixo. No entanto, acho necessário uma reflexão maior sobre o fanatismo futebolístico e sua relação aparentemente intrínseca com o irracional. Tomar isso como verdade absoluta tem levado a certas transgressões.

Na minha opinião, fanático (lembre-se que estamos no terreno do futebol apenas) é aquele que conhece a história de seu time, que vai ao estádio, que sabe a escalação, que acompanha todos os jogos, campeonatos e tudo mais que ao nome do time estiver relacionado, e mais importante, aquele que mesmo sabendo da inferioridade de seu time em relação ao outro (o que, convenhamos, exige uma certa dose de racionalidade e reflexão) acredita que a vitória pode acontecer.

O fanatismo futebolístico permite sim, a discussão saudável. Peguemos esse blog como prova empírica: é escrito por três jovens torcedores, cada um torce para um time diferente, sendo que estes são rivais entre si; todos se consideram fanáticos e na maioria das vezes chegamos em consenso. Isso acontece porque achar o Dentinho melhor que o Cristiano Ronaldo não é fanatismo, é burrice; discutir se o Flamengo tem mais tradição que o Grêmio é sem fundamento; não concordar que seu próprio time só venceu em razão de ajuda erro da arbitragem é não querer enxergar a verdade. Portanto, os torcedores comuns que aderem a certas irracionalidades como as citadas acima se aproximam de uma linha tênue que os separa dos vândalos de torcidas organizadas, que nada mais fizeram a não ser instituir um amedrontamento ao jogo de futebol e afastar as famílias dos estádios. Estes, por alguma razão (ajuda de dirigentes?), acharam ter a prerrogativa de se considerarem mais torcedores do que os comuns, e tomaram, erroneamente, a alcunha de verdadeiros fanáticos. Vemos, e muito mais que isso, sentimos o resultado de tal processo.

O grande problema é que o fanatismo por um time vem cada vez mais se separando do fanatismo pelo futebol. Já ouvi muitos relatos de pessoas mais velhas dizendo que iam assistir a jogos de times que não eram os seus simplesmente pelo prazer de assistir a uma partida de futebol; isso está se esvaindo. E para mim a razão disso é o argumento apresentado acima: as pessoas gostam cada vez mais apenas do seu clube do que do futebol por si só. Claro que certas discussões não chegam a lugar nenhum, mas para quem gosta de futebol, opiniões que são apenas opiniões não interessam, necessita-se do argumento, que gera o contra-argumento e mesmo assim, muitas vezes consensos não são atingidos; algumas vezes o resultado é frutífero, como este blog.

Rodrigo Giordano

Apresentação

07/06/2009

Caros,

Iniciamos aqui uma grandissíssima empreitada que esperamos nunca chegar ao fim. Discutiremos sobre as nuances do mundo ludopédico, sempre com muito mau humor.

Aqui você poderá encontrar tudo que a mídia comum não traz sobre o futebol, dando espaço para todas as competições que forem de nossos alcances.

Comentários são sempre bem-vindos, assim como sua presença periódica.

Tocarão isso daqui: Rodrigo Giordano, Caio Hornstein e Felipe Blumen; contando sempre com especiais colaborações.

Abraços